Binkusu no Natal (One Piece cover)

Gravei essa versão da música Binkusu no Sake (Bink’s sake) recentemente. A música é tocada no anime One Piece pelo personagem Brook, músico que a interpreta tanto no piano quanto com um violino.

Inicialmente eu queria fazer com ela o mesmo que fiz com a música “Daddy, why did you eat my fries” de Adventure Time, mas algo deu errado ou estranhamente certo… Ela ficou pouco jazz e, talvez influenciado pela época, muito parecida com músicas de Natal que tocam no “Natal de Charlie Brown”. Fica aí a versão com efeitos sonoros de mar, ao estilo de One Piece, em SoundCloud ou Youtube.

Escalobóbado

61 Escalobóbado

Aquela sensação de não pertença,
aquele coração em desavença,
aquela hora tão demorada,
aquela respiração não terminada.

Tudo foge nessa hora.
Prazeres e sofreres vão embora.
A vontade é nula e vazia,
não importando o que eu fazia.

Escalobóbado, digo eu.
Um sentimento de não saber
o que faço com o tempo meu.

Escalobóbado, disse assim.
O sentimento que nomeei
Quando o mau ócio veio a mim.

Linha do Tempo

Linha do Tempo é um improviso de cerca de 6 minutos que foi guiado pela simples ideia do desenvolvimento humano. Não me refiro às invenções e às épocas em que foram criadas, mas sim as idades pelas quais passamos: infância, adolescência, adulto jovem, adulto, meia-idade, velhice. Tentei deixar a música parecida com os eventos típicos dessas épocas, embora acabou ficando bem triste. Talvez a vida seja triste mesmo, mas não sempre.

No vídeo usei fotos (fonte: Google imagens) para representar as idades e escrevi legendas como se fossem a narração de uma linha do tempo, desde o nascimento ao fim da vida. Deu muito trabalho, inclusive porque o meu notebook ficava superaquecendo toda vez que eu renderizava o vídeo. No final, acho que ficou bom.


Pequena Charlote II: Aprés

59 e 60

Arthur John Elsley ~ Portrait of a Victorian Girl

Ao som da caixa de música dançava
como se fosse uma bailarina.
Com as sombras ela brincava
tremendo a luz da lamparina.

Mas ao tentar cruzar um rio
quando chovia com violência,
tropeçou, Charlote, e caiu
com toda sua inocência.

Em calafrios e calor
na infecção que estava a sofrer,
tossia, até sentir dor.

Nunca antes, em tanta alegria,
imaginara morrer
aos dez, de pneumonia.

Pequena Charlote I: Avant

59 e 60

Arthur John Elsley ~ Portrait of a Victorian Girl

Levava aroma de jasmim
quando corria pela casa.
Mas em seu vestido de cetim
o rosto ardia em brasa.

Corria, falava, questionava.
Parecia mais um furacão!
E não havia quem não a amava
pelo seu puro coração.

Mas a chuva e o tempo
cobram sua dívida assim
seja o pagamento rápido ou lento.

Tal cobrança quebrou a promessa
de que tudo ficaria bem no fim.
Deixando a vida às avessas.

O Conde de Abranhos – Eça de Queirós

11 O Conde D'Abranhos

José Maria de Eça de Queirós nasceu em novembro de 1845 e faleceu em agosto de 1900. O Conde D’Abranhos foi, porém, publicado em 1925. Obra publicada postumamente, era apenas um maço de folhas, uns rabiscos a lápis, quando fora encontrada pelo filho. Segundo ele o livro foi escrito numa inspiração vertiginosa, quase sem uma correção ou emenda. Antes de mais nada – tal como apontado pelo filho de Eça de Queiroz – a obra é um rascunho e, por isso mesmo, é mais exagerada do que as demais obras do autor. Eu mesmo não posso dizer muito sobre isso porque, apesar de ter outros dois livros do autor, ainda não os li. Contudo, na introdução do livro diz-se que o personagem do Conde é um exagero para sua época, mas cada vez mais realista a medida que o tempo passa. Aparentemente o livro não fora revisado e “suavizado”, como era comum que Eça fizesse com suas obras. É, portanto, a caricatura crua.

O livro é uma carta escrita pelo personagem Z. Zagalo, jornalista e ex-secretário do Conde D’Abranhos, à Condessa de Abranhos após a morte do Conde português. Ele narra a vida de Alípio Severo Abranhos, começando pelo seu nascimento na cidade de Penafiel. Conta a infância, a adolescência e os estudos de Direito, chegando ao casamento e ao ingresso de Abranhos na vida política. Continuar lendo

Funcionários

57 Funcionários

Empregados assalariados
trazem em si a mesma humanidade
de qualquer um dos patrões.

O maior desejo do lavador de louças
é que parem de usar as louças.
Que parem de beber, de comer,
de sujar.

O maior desejo do faxineiro
é que parem de trazer poeira,
que parem de derrubar coisas,
que parem de fazer bagunça.

O maior desejo do copeiro
é que parem de sujar copos e talheres.
O maior desejo do zelador
é que estejam sempre em casa.

Mas o maior desejo do cozinheiro
é que comam, bebam e fiquem fartos.
Que vão fazer bagunça, sujar, passear,
mas que continuem satisfeitos.

Empregados assalariados
trazem em si a mesma humanidade
de qualquer um dos patrões.

Medicamentoso

56 Medicamentoso

A hora do medicamento
é uma hora sagrada,
não deve ser violada.

O sabor do medicamento
pode ser ruim,
mas tudo tem um fim.

O efeito do medicamento
pode ter um preço,
pagando-o amadureço.

Mas a função do medicamento
é sem igual,
livrando-me de tanto mal…

Para que serve a poesia

55 Para que serve a poesia

Para que serve a poesia?
Com todas essas rimas,
com todas essas sensações,
com toda essa métrica?

Para que serve a poesia?
Delírio vão
em momento são
de qualquer emoção.

Para que serve um poema?
Não tem sentido,
só tem beleza sem clareza,
cada palavra uma charada.

Para que serve um poema?
Para subverter o sistema,
para servir de emblema,
para criar problema.

É esse utilitarismo materialista
que fez dos músicos e poetas
vagabundos para o capitalista
mas para as coisas do coração: profetas.

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Finis~

54 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Finis~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Finis~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

E eis que Aguinon chegou ao litoral.
Passou por vales e montanhas, vila e capital.
Era o fim das terras ermas, até onde sabia.
E nada mais no horizonte lhe atraía.

Mas logo na praia havia algo inusitado
parecia uma lápide com um rosto fechado.
Aguinon aproximou para observar
e foi quando o rosto começou a falar.

– Bem vindo, viajante, ao fim das ermas terras
que jazem ao leste, após todas as guerras.
Aqui muito há que não possa existir
fora dos pesadelos que um dia irão te afligir.

– Quem sois tu, cabeça? Uma peça, me prega?
Ou és um ser vivo que de maldade se rega?
– Sou nada demais, viajante, apenas um amigo;
pois tens, e bastante, em comum comigo.

– Já fui viajante, hoje aqui estou preso
para dizer aos demais que não saí ileso.
Nesta praia maldita perdi meu corpo de carne
e aqui ficarei para que dos outros escarne.

– Mas o que fará agora que chegou ao final?
Para onde vai viajante, nesse fim colossal?
Mas Aguinon nada respondeu e se pôs a pensar
Afinal, o que haveria para além do mar?

– O que tem, cabeça, além desse mar?
Sabes de algo que lá eu possa encontrar?
– Só sei que para continuar deverás ter sorte,
pois nada sei que haja lá além da morte.

– Fui marinheiro por anos e não recomendo
que sigas a frente por caminho horrendo.
Mas Aguinon já decidira o que fazer a seguir
e a cabeça não pode o dissuadir.

A viagem pelas terras ermas enfim terminou.
Aguinon sumiu e uma lenda se tornou.
E a lenda que restou não trás um pingo de realidade,
pois é muito diminuta do que foi na verdade.