
A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Finis~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski
Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.
Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.
E eis que Aguinon chegou ao litoral.
Passou por vales e montanhas, vila e capital.
Era o fim das terras ermas, até onde sabia.
E nada mais no horizonte lhe atraía.
Mas logo na praia havia algo inusitado
parecia uma lápide com um rosto fechado.
Aguinon aproximou para observar
e foi quando o rosto começou a falar.
– Bem vindo, viajante, ao fim das ermas terras
que jazem ao leste, após todas as guerras.
Aqui muito há que não possa existir
fora dos pesadelos que um dia irão te afligir.
– Quem sois tu, cabeça? Uma peça, me prega?
Ou és um ser vivo que de maldade se rega?
– Sou nada demais, viajante, apenas um amigo;
pois tens, e bastante, em comum comigo.
– Já fui viajante, hoje aqui estou preso
para dizer aos demais que não saí ileso.
Nesta praia maldita perdi meu corpo de carne
e aqui ficarei para que dos outros escarne.
– Mas o que fará agora que chegou ao final?
Para onde vai viajante, nesse fim colossal?
Mas Aguinon nada respondeu e se pôs a pensar
Afinal, o que haveria para além do mar?
– O que tem, cabeça, além desse mar?
Sabes de algo que lá eu possa encontrar?
– Só sei que para continuar deverás ter sorte,
pois nada sei que haja lá além da morte.
– Fui marinheiro por anos e não recomendo
que sigas a frente por caminho horrendo.
Mas Aguinon já decidira o que fazer a seguir
e a cabeça não pode o dissuadir.
A viagem pelas terras ermas enfim terminou.
Aguinon sumiu e uma lenda se tornou.
E a lenda que restou não trás um pingo de realidade,
pois é muito diminuta do que foi na verdade.