Linha do Tempo

Linha do Tempo é um improviso de cerca de 6 minutos que foi guiado pela simples ideia do desenvolvimento humano. Não me refiro às invenções e às épocas em que foram criadas, mas sim as idades pelas quais passamos: infância, adolescência, adulto jovem, adulto, meia-idade, velhice. Tentei deixar a música parecida com os eventos típicos dessas épocas, embora acabou ficando bem triste. Talvez a vida seja triste mesmo, mas não sempre.

No vídeo usei fotos (fonte: Google imagens) para representar as idades e escrevi legendas como se fossem a narração de uma linha do tempo, desde o nascimento ao fim da vida. Deu muito trabalho, inclusive porque o meu notebook ficava superaquecendo toda vez que eu renderizava o vídeo. No final, acho que ficou bom.


Pequena Charlote II: Aprés

59 e 60

Arthur John Elsley ~ Portrait of a Victorian Girl

Ao som da caixa de música dançava
como se fosse uma bailarina.
Com as sombras ela brincava
tremendo a luz da lamparina.

Mas ao tentar cruzar um rio
quando chovia com violência,
tropeçou, Charlote, e caiu
com toda sua inocência.

Em calafrios e calor
na infecção que estava a sofrer,
tossia, até sentir dor.

Nunca antes, em tanta alegria,
imaginara morrer
aos dez, de pneumonia.

Pequena Charlote I: Avant

59 e 60

Arthur John Elsley ~ Portrait of a Victorian Girl

Levava aroma de jasmim
quando corria pela casa.
Mas em seu vestido de cetim
o rosto ardia em brasa.

Corria, falava, questionava.
Parecia mais um furacão!
E não havia quem não a amava
pelo seu puro coração.

Mas a chuva e o tempo
cobram sua dívida assim
seja o pagamento rápido ou lento.

Tal cobrança quebrou a promessa
de que tudo ficaria bem no fim.
Deixando a vida às avessas.

O Conde de Abranhos – Eça de Queirós

11 O Conde D'Abranhos

José Maria de Eça de Queirós nasceu em novembro de 1845 e faleceu em agosto de 1900. O Conde D’Abranhos foi, porém, publicado em 1925. Obra publicada postumamente, era apenas um maço de folhas, uns rabiscos a lápis, quando fora encontrada pelo filho. Segundo ele o livro foi escrito numa inspiração vertiginosa, quase sem uma correção ou emenda. Antes de mais nada – tal como apontado pelo filho de Eça de Queiroz – a obra é um rascunho e, por isso mesmo, é mais exagerada do que as demais obras do autor. Eu mesmo não posso dizer muito sobre isso porque, apesar de ter outros dois livros do autor, ainda não os li. Contudo, na introdução do livro diz-se que o personagem do Conde é um exagero para sua época, mas cada vez mais realista a medida que o tempo passa. Aparentemente o livro não fora revisado e “suavizado”, como era comum que Eça fizesse com suas obras. É, portanto, a caricatura crua.

O livro é uma carta escrita pelo personagem Z. Zagalo, jornalista e ex-secretário do Conde D’Abranhos, à Condessa de Abranhos após a morte do Conde português. Ele narra a vida de Alípio Severo Abranhos, começando pelo seu nascimento na cidade de Penafiel. Conta a infância, a adolescência e os estudos de Direito, chegando ao casamento e ao ingresso de Abranhos na vida política. Continuar lendo

Funcionários

57 Funcionários

Empregados assalariados
trazem em si a mesma humanidade
de qualquer um dos patrões.

O maior desejo do lavador de louças
é que parem de usar as louças.
Que parem de beber, de comer,
de sujar.

O maior desejo do faxineiro
é que parem de trazer poeira,
que parem de derrubar coisas,
que parem de fazer bagunça.

O maior desejo do copeiro
é que parem de sujar copos e talheres.
O maior desejo do zelador
é que estejam sempre em casa.

Mas o maior desejo do cozinheiro
é que comam, bebam e fiquem fartos.
Que vão fazer bagunça, sujar, passear,
mas que continuem satisfeitos.

Empregados assalariados
trazem em si a mesma humanidade
de qualquer um dos patrões.

Para que serve a poesia

55 Para que serve a poesia

Para que serve a poesia?
Com todas essas rimas,
com todas essas sensações,
com toda essa métrica?

Para que serve a poesia?
Delírio vão
em momento são
de qualquer emoção.

Para que serve um poema?
Não tem sentido,
só tem beleza sem clareza,
cada palavra uma charada.

Para que serve um poema?
Para subverter o sistema,
para servir de emblema,
para criar problema.

É esse utilitarismo materialista
que fez dos músicos e poetas
vagabundos para o capitalista
mas para as coisas do coração: profetas.

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Finis~

54 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Finis~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Finis~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

E eis que Aguinon chegou ao litoral.
Passou por vales e montanhas, vila e capital.
Era o fim das terras ermas, até onde sabia.
E nada mais no horizonte lhe atraía.

Mas logo na praia havia algo inusitado
parecia uma lápide com um rosto fechado.
Aguinon aproximou para observar
e foi quando o rosto começou a falar.

– Bem vindo, viajante, ao fim das ermas terras
que jazem ao leste, após todas as guerras.
Aqui muito há que não possa existir
fora dos pesadelos que um dia irão te afligir.

– Quem sois tu, cabeça? Uma peça, me prega?
Ou és um ser vivo que de maldade se rega?
– Sou nada demais, viajante, apenas um amigo;
pois tens, e bastante, em comum comigo.

– Já fui viajante, hoje aqui estou preso
para dizer aos demais que não saí ileso.
Nesta praia maldita perdi meu corpo de carne
e aqui ficarei para que dos outros escarne.

– Mas o que fará agora que chegou ao final?
Para onde vai viajante, nesse fim colossal?
Mas Aguinon nada respondeu e se pôs a pensar
Afinal, o que haveria para além do mar?

– O que tem, cabeça, além desse mar?
Sabes de algo que lá eu possa encontrar?
– Só sei que para continuar deverás ter sorte,
pois nada sei que haja lá além da morte.

– Fui marinheiro por anos e não recomendo
que sigas a frente por caminho horrendo.
Mas Aguinon já decidira o que fazer a seguir
e a cabeça não pode o dissuadir.

A viagem pelas terras ermas enfim terminou.
Aguinon sumiu e uma lenda se tornou.
E a lenda que restou não trás um pingo de realidade,
pois é muito diminuta do que foi na verdade.

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Equus~

53 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Equus~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Equus~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

Certa vez, quando era entardecer,
Aguinon viu algo de estarrecer.
Havia uma mulher sobre um cavalo na estrada,
mas estavam parados e ela jazia calada.

Aguinon se aproximou pedindo informações,
mas nenhum pode ajudar com as direções.
O cavalo era branco de crina preta e longa.
A cabeça só era osso, uma caveira oblonga.

A mulher pálida parecia mumificada
enquanto o cabelo obedecia à brisa mortificada.
No colo da mulher, uma boneca ficava,
e ela lhe apertava como se fosse sua escrava.

Aguinon se espantou com tamanha cena,
quem deixara ali essa tristeza obscena?
Depois de observar resolveu prosseguir
queria informações que lhe permitissem seguir.

Chegou então a uma cidade destruída.
Mendigos nas ruas com a face esculpida.
Vendo tamanha fome e dificuldade,
ele se aproximou com muita humildade.

Aos portões perguntou a um cidadão:
– Olá, amigo, pode me dar uma informação?
O que é aquela estátua de um cavalo e uma mulher morta
que está na estrada, quase aqui na porta?

O homem sobressaltou-se e começou a tremer,
Aguinon se assustou e o homem não podia crer.
– Aquele é o fantasma da mãe sem sorte,
quando ele aproxima, trás consigo a morte.

– Mas credes ser um fantasma mesmo?
Me parecia bem sólido, sem nenhum desmo.
– Creio sim, mas tu fostes o único a ver
com teus olhos o fantasma e sobreviver!

Aguinon partiu para o leste em pouco tempo,
mas quando afastou da cidade sentiu vir dela um vento.
Olhou para trás e viu na cidade então,
os cidadãos correndo em profusão.

Atrás deles vinha uma figura de longo cabelo
e o sangue de Aguinon tornou-se gelo.
O fantasma atropelava alguns habitantes
e colhia os corpos como se diamantes.

Ao continuar Aguinon se assustou outra vez.
Não esperava mais ver aquilo talvez.
Seu caminho então, com cuidado continuou
pois ali, a sua frente, a boneca encontrou.

Insônia

52 Insônia

A noite já chegou há muito tempo.
As trevas já invadem meu quarto.
Mas a realidade não tem pausa.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Os olhos vermelhos que não se cerram
lacrimejam com o bocejar constante
mas não se fecham, não sonham.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Ah, terrível estado de espírito!
Eis que o tempo passa mas nada é produzido
e o alvorecer já desponta em grande espetáculo.
Tic-tac, tic-tac… Triim!