Hai-kais e poemas psiquiátricos 1

Um dos meus maiores medos era ficar louco. Achava pouco provável, mas se fosse possível eu temeria com certeza. Comecei a pesquisar sobre alguns transtornos mentais e, para minha surpresa, descobri que é muito tênue a linha que divide o normal do anormal, o sadio do doente. Pesquisando sobre vários resolvi elaborar esses hai-kais e poemas inspirados nos transtornos que li sobre.

50 Hai-kais e poemas psiquiátricos 1

Depressão Maior

Com membros fracos.
Sem sentido, é tudo cinza.
Não há mais vontade…

Transtorno Bipolar

Entre sombras foscas
de desamparo e decepção,
surgem momentos coloridos e imensa agitação, aberrante e desvairada, a pular na multidão, como se fosse um eterno dia com a maior promessa já feita à humanidade.

Esquizofrenia

Tendas abissais
de peixes coloridos
rondam o sono vazio.

Transtorno de Pânico

Um momento
que de repente explode
em terror silencioso.

Transtorno Obssessivo-Compulsivo

Linhas certas,
nunca tortas.
Ordenadas.

Fogo, areia e sal

49 Fogo, areia e sal

Palha sobre palha,
o tempo há de apagar.
Areia sobre areia,
o tempo há de apagar.
Tábua sobre tábua,
o tempo há de apagar.
Pedra sobre pedra,
o tempo há de apagar.
Ferro sobre ferro,
o tempo há de apagar.
Lembrança sobre lembrança,
o tempo há de apagar.
Só não se apagará da minha mente
aquele momento de sol poente.
Nem que chova fogo do céu,
ou que o mar se torne areia e sal.
Não se apagará da minh’alma
jamais.

Wolf Children (2012)

wolf-children-1Após conseguir o filme “Wolf Children” demorei meses até realmente assisti-lo. Longa-metragem de 2012, a animação japonesa explora bem tanto elementos do cotidiano quanto do fantástico. A animação conta com a direção e roteiro de Mamoru Hosoda, mesmo diretor de Summer Wars. Continuar lendo

Havia um abismo no meio do caminho

48 Havia um abismo no meio do caminho

Encontrei um abismo em meu caminho.
Procurei avistar o que havia em seu fundo,
mas nada meus olhos puderam ver.
Comprei luzes e lanternas e joguei-as todas
mas nada consegui distinguir.
Esperei que a luz do Sol o iluminasse,
mas ela não pode penetrar-lhe a escuridão.
Enfim desisti de tentar entender.
Joguei-me em suas trevas e ali estou até hoje.
Entendi que não havia um abismo em meu caminho,
mas que ele era parte do percurso.
Um túnel encontrei. No túnel ainda estou.
Não faço ideia de onde irei chegar,
mas chegarei.

The Sad And Crazy Story Of Minnie The Moosher

Ouvi essa música pela primeira vez em um episódio de “Jeeves and Wooster”, série britânica com Hugh Laurie e Stephen Fry. É um típico jazz do início do século XX, inclusive pela letra cheia de gírias. Cab Calloway aparece cantando essa música no filme “The Blues Brothers”, de 1980. Ele teve seu auge na época em que não bastava cantar na televisão em preto e branco, mas também dançar.cab-calloway-c32-whitetails-1a-crop12[1]

Aprendi na internet parte do improviso de Laurie e o restante… improvisei. Essa é minha interpretação de “Minnie the Moosher” de Cab Calloway, com uma pitada de Jeeves and Wooster. O longo nome (“The Sad And Crazy Story Of Minnie The Moosher And Her Heart As Big As A Whale”) é uma referência aos nomes de obras antigas, que muitas vezes eram gigantes. Se fosse uma versão com um ar mais contemporâneo, eu chamaria apenas de “Minnie”.

O vídeo tem os ratinhos dançantes de um episódio antigo de Tom e Jerry, da época em que eles não eram nem gato e rato.

Quietude

47 Quietude

Às vezes,
nos barulhos do mundo
tudo o que busco
é um pouco de silêncio.

Procuro um local calmo,
nem frio e nem quente,
nem úmido e nem seco,
onde eu possa sentir a mim mesmo.

Sinto que só desejo
fechar os olhos e mergulhar.
Mergulhar, mergulhar…
Numa imensidão vazia, inexistente.

Vontade oculta e profunda:
O silêncio da manhã de primavera.
A calma do crepúsculo de inverno.
As madrugadas das noites ao luar.

As duas faces de Zorro (1981)

zorro-gay-1Quando criança eu gostava muito da série Zorro que passava na televisão. A série tratava da versão mascarada e espanhola de Robin-Hood, oculta sobre a pessoa de Don Diego de la Vega, que fingia ser um pacifista almofadinhas para despistar. Já o filme parece uma sátira da série, acrescentando elementos novos e divertidos. O caminho que me levou a esse filme foi tão entroncado e confuso que eu mesmo não sei como recontá-lo. “As duas faces de Zorro”, porém, foi um dos melhores filmes de comédia pastelão dos anos 80 que eu já vi. Continuar lendo

Asterix e o Domínio dos Deuses (2014)

asterix-1Nos últimos anos houve muita mudança envolvendo o universo de Asterix. O gaulês fora criado por Albert Uderzo e René Goscinny, e Uderzo continuou produzindo as histórias mesmo após a morte de René. Na última década houve a transferência dos direitos de Asterix para uma editora e Albert Uderzo resolveu deixar de roteirizar e desenhar os quadrinhos do gaulês, indicando antigos assistentes seus para a tarefa de produzir mais aventuras. Continuar lendo

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Domus dei est mors~

46 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Domus dei est mors~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Domus dei est mors~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

As janelas do templo em fogo ardiam,
enquanto as paredes na luz tremiam.
No centro do salão de imensa altura
jazia um portal sob uma figura.

Parecia um homem de olhos brilhantes
trazendo, às costas, asas triunfantes.
Uma delas quebrara e descansava no chão,
ao lado da estátua de um temível leão.

O portal parecia coberto por um branco véu
que balançava ao vento com cores de mel.
“Quem veio meus conselhos buscar?
Quem logo deseja me glorificar?”

– Sou Aguinon, um simples viajante.
Só gostaria de ouvir sobre o deus ocupante.
“Sou eu, Aguinon, antigo deus do passado.
Um destruidor deus de um povo fracassado.”

“Por gerações fui, por reis, cultuado.
Mas hoje não resta-me um único soldado.
Em meu nome mataram e violentaram,
embora não fosse o desejo ordenado.”

– Mas como pode um deus cair?
Como pode teu trono sucumbir?
Não fostes tão poderoso
que criava o saber no religioso?

“Já fui sim, hoje não sou nada
além de uma sombra de fúria humanizada.
Fui criado nas terras além do tempo e da vida
e voltarei para lá como um genocida.”

– E todos aqueles que amaldiçoastes há tempos?
E todos que ofereceram até seus farrapos?
Tantos morreram e tantos choraram
que farás tu, deus, pelos que te amaram?

“Nada farei, nada posso fazer.
Fui só um deus, hoje nada posso ser.
Mas rogo a ti que me tenha piedade
pois eis de dizer a ti a verdade.”

“Se viajas pelas terras ermas, sabes bem dos perigos
sabes bem das sombras que se escondem contigo.
Nessa terra de loucos com sangue regada
surgirá uma mulher amaldiçoada.”

“Ela poderá deixá-lo morrer,
mas não fará isso pelo que eu posso ver.
A loucura lhe visitará, mais cedo ou tarde
e eis que você a conhecerá de verdade.”

– Agradeço a profecia, mas digo algo a mais:
Não vistes o tempo de frente para trás?
A mulher já surgiu e já foi-se embora,
quisera eu acompanhar tal senhora.

Dizendo isso, Aguinon saiu da torre
enquanto as chamas ardiam ao longe.
Já era noite e Jolaw apareceu na neblina
– Desejas alimento e água cristalina?

E assim Aguinon pode descansar,
dormir um pouco e até mesmo sonhar.
Mas as terríveis palavras surgiam em sua mente.
Haveria semelhante mulher no seu caminho a frente?

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Custos~

45 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Custos~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Custos~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

Após atravessar o corredor dos condenados,
Aguinon percebeu dois vultos assombrados.
O maior parecia um homem de enorme cabeça
enquanto o menor parecia era ser uma besta.

No local onde chegou, logo viu um arvoredo
mas as sombras não deixaram de lhe inspirar medo.
Havia muros de sebes e colunas decorativas
e uma torre mais adiante que parecia em ruínas.

Logo os vultos se aproximaram e Aguinon os viu parar.
Era um grande cachorro e seu dono a passear.
O homem era velho e em uma bengala se apoiava.
E no lugar de cada olho uma orbe negra se instalava.

A pele verde clara estava sob a roupa, farrapo.
Não tinha uma das pernas e a outra parecia um trapo.
Guiando-o estava o cão, negro com pequenos olhos escuros
As patas eram finas e o andar parecia bem duro.

– Quem és tu, forasteiro? – perguntou o idoso.
– Sou Aguinon, viajante – respondeu todo amistoso.
– E vós? Sois guardiões do templo de um deus?
– Já fomos. Hoje somos só sombras do que se perdeu.

– Sou Jolaw, sacerdote, e este comigo é Nerém.
Aguardamos aqui nossa morte e juízo de mais ninguém.
Nosso deus era bravo, forte e destemido,
mas então caiu em desgraça e está adormecido.

– Se quiser pode até lhe falar, não faremos oposição.
Mas não tem o poder de um deus… Veja que situação.
Sua força já dorme há milênios sob ardente brasa,
e o deus antes poderoso é só mais um fantasma.

– Agradeço sua permissão e ao templo vou me dirigir.
Quisera falar com um deus, mesmo um que está a se exaurir.
E assim Aguinon partiu para a torre com janelas em chamas,
as ruínas eram dignas de um deus com tantos melodramas.