A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Domus dei est mors~

46 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Domus dei est mors~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Domus dei est mors~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

As janelas do templo em fogo ardiam,
enquanto as paredes na luz tremiam.
No centro do salão de imensa altura
jazia um portal sob uma figura.

Parecia um homem de olhos brilhantes
trazendo, às costas, asas triunfantes.
Uma delas quebrara e descansava no chão,
ao lado da estátua de um temível leão.

O portal parecia coberto por um branco véu
que balançava ao vento com cores de mel.
“Quem veio meus conselhos buscar?
Quem logo deseja me glorificar?”

– Sou Aguinon, um simples viajante.
Só gostaria de ouvir sobre o deus ocupante.
“Sou eu, Aguinon, antigo deus do passado.
Um destruidor deus de um povo fracassado.”

“Por gerações fui, por reis, cultuado.
Mas hoje não resta-me um único soldado.
Em meu nome mataram e violentaram,
embora não fosse o desejo ordenado.”

– Mas como pode um deus cair?
Como pode teu trono sucumbir?
Não fostes tão poderoso
que criava o saber no religioso?

“Já fui sim, hoje não sou nada
além de uma sombra de fúria humanizada.
Fui criado nas terras além do tempo e da vida
e voltarei para lá como um genocida.”

– E todos aqueles que amaldiçoastes há tempos?
E todos que ofereceram até seus farrapos?
Tantos morreram e tantos choraram
que farás tu, deus, pelos que te amaram?

“Nada farei, nada posso fazer.
Fui só um deus, hoje nada posso ser.
Mas rogo a ti que me tenha piedade
pois eis de dizer a ti a verdade.”

“Se viajas pelas terras ermas, sabes bem dos perigos
sabes bem das sombras que se escondem contigo.
Nessa terra de loucos com sangue regada
surgirá uma mulher amaldiçoada.”

“Ela poderá deixá-lo morrer,
mas não fará isso pelo que eu posso ver.
A loucura lhe visitará, mais cedo ou tarde
e eis que você a conhecerá de verdade.”

– Agradeço a profecia, mas digo algo a mais:
Não vistes o tempo de frente para trás?
A mulher já surgiu e já foi-se embora,
quisera eu acompanhar tal senhora.

Dizendo isso, Aguinon saiu da torre
enquanto as chamas ardiam ao longe.
Já era noite e Jolaw apareceu na neblina
– Desejas alimento e água cristalina?

E assim Aguinon pode descansar,
dormir um pouco e até mesmo sonhar.
Mas as terríveis palavras surgiam em sua mente.
Haveria semelhante mulher no seu caminho a frente?

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Custos~

45 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Custos~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Custos~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

Após atravessar o corredor dos condenados,
Aguinon percebeu dois vultos assombrados.
O maior parecia um homem de enorme cabeça
enquanto o menor parecia era ser uma besta.

No local onde chegou, logo viu um arvoredo
mas as sombras não deixaram de lhe inspirar medo.
Havia muros de sebes e colunas decorativas
e uma torre mais adiante que parecia em ruínas.

Logo os vultos se aproximaram e Aguinon os viu parar.
Era um grande cachorro e seu dono a passear.
O homem era velho e em uma bengala se apoiava.
E no lugar de cada olho uma orbe negra se instalava.

A pele verde clara estava sob a roupa, farrapo.
Não tinha uma das pernas e a outra parecia um trapo.
Guiando-o estava o cão, negro com pequenos olhos escuros
As patas eram finas e o andar parecia bem duro.

– Quem és tu, forasteiro? – perguntou o idoso.
– Sou Aguinon, viajante – respondeu todo amistoso.
– E vós? Sois guardiões do templo de um deus?
– Já fomos. Hoje somos só sombras do que se perdeu.

– Sou Jolaw, sacerdote, e este comigo é Nerém.
Aguardamos aqui nossa morte e juízo de mais ninguém.
Nosso deus era bravo, forte e destemido,
mas então caiu em desgraça e está adormecido.

– Se quiser pode até lhe falar, não faremos oposição.
Mas não tem o poder de um deus… Veja que situação.
Sua força já dorme há milênios sob ardente brasa,
e o deus antes poderoso é só mais um fantasma.

– Agradeço sua permissão e ao templo vou me dirigir.
Quisera falar com um deus, mesmo um que está a se exaurir.
E assim Aguinon partiu para a torre com janelas em chamas,
as ruínas eram dignas de um deus com tantos melodramas.

Drácula, Morto mas Feliz (1995)

kinopoisk.ru

kinopoisk.ru

Aproveitando a onda de filmes de comédia pastelão dos anos 80, eu não podia deixar de falar de Dracula: morto mas feliz. O filme foi lançado em 1995 e é uma paródia muito engraçada da história de vampiro mais re-filmada até hoje. Continuar lendo

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Fas et Fatum~

44 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Fas et Fatum~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Fas et fatum~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

Certa vez Aguinon viu no horizonte
duas montanhas azuis além dos montes.
Eram altas, acima de toda a paisagem!
Mas entre elas havia uma estranha passagem.

Aguinon, curioso, resolve verificar
se aquela visão era só ele a alucinar.
Ao fim do dia chegou a base das montanhas,
expulsando com o cajado várias aranhas.

Contemplou, admirado, o sinistro corredor.
Ali escavaram um caminho assustador.
Uma passagem na montanha a frente conduzia
enquanto uma névoa o chão todo cobria.

O viajante resolveu se aventurar
para saber até onde o caminho iria levar.
Mas não reparou numa placa no chão:
Destino, história, aqui jaz Perdição.

Após algumas horas já anoitecia,
mas a fraca lanterna de Aguinon reluzia.
Reparando nas faces das montanhas feridas,
haviam ranhuras e entalhes como se esculpidas.

Erguendo a cabeça ele não pode acreditar,
entalhadas nas rochas, estavam estátuas a conversar.
As estátuas usavam longos e rochosos mantos
Sob os quais haviam rostos sacrossantos.

As faces tinham o aspecto de velhas caveiras,
sob um céu que parecia arder em fogueiras.
– Quem és tu, pequenino? – perguntou com as mãos postas.
– Sou Aguinon, peregrino, e vós? – ouviu-se em resposta.

– Sou Archimedek, o impuro, e aqui estou condenado.
Fui ladrão, assassino e me entreguei ao pecado.
– Como fostes condenado? E por quem, acusado?
– Aqui estou pela vontade de um deus do passado.

– E teus iguais? Todos terão a mesma sina?
– Sim, mas cada qual seu lamento aqui desafina.
– E o que há no final deste trabalhado corredor?
– Um abandonado templo ao meu antigo senhor.

E para lá foi Aguinon,
sem nem pestanejar.
Enquanto os gigantes de pedra
nele fixavam o olhar.

Anjos da Noite (2003 – 2012)

Underworld-1

Anjos da Noite, ou “Underworld”, é uma série de quatro filmes (embora haja mais dois em filmagem ou planejamento) sobre vampiros, lobisomens e outros mistérios. A maioria dos filmes conta a história de Selene, uma bela vampira na flor da juventude em seus seiscentos anos. Continuar lendo

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Requiem in Polis~

43 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Requiem in Polis~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Requiem in Polis~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

Certa vez, quando percorrera as Terras Ermas,
deparou-se com uma estranha paisagem.
Aos pés de uma montanha viu uma entrada e,
curioso, decidiu cruzar a passagem.

Logo deparou-se com um vale dourado,
iluminado pela manhã em alvorecer.
Mas o que havia de estranho nos morros
eram caixas até de vista perder.

Observou as caixas de tamanhos diversos
e cruzou os morros sombrios.
Algumas vezes viu um vulto fugaz
o seguindo por entre os baixios.

– Quem és tu? – disse Aguinon resoluto.
– O que queres? – completou, revoltado.
– Sou um artista – respondeu uma voz.
– Desejo explicar-te – e quedou calado.

– Explica então – Aguinon retrucou.
E a voz, lhe falou, de outro lado:
Sê bem vindo a cidade dos mortos,
onde vivem por todos os lados.

Aguinon encarou pois uma caixa pequena,
puxou-lhe a tampa e assustou com horror.
Lá dentro havia um menino,
mas só o corpo, já então sem calor.

– Tu fizestes essa pólis macabra?
Tu fizestes essa afronta a vida?
Tu veneras os mortos e
não temes a própria sorte?

– Ao contrário, hebreu pecador.
Tenho sortes de todo tipo.
Fiz para mim uma caixa igual,
Pois também mereço castigo.

– Se quiseres faço-te uma bela,
preparo até mesmo as flores.
Recito orações na capela
enquanto corrói-se de dores.

Aguinon já foi tolo um dia,
mas há muito deixou de sê-lo.
Enquanto a voz gargalhava,
A saída procurou em atropelo.

Afinal um caminho encontrou,
e percorreu sem para trás se virar.
Saiu veloz como o vento,
enquanto a voz ainda estava a gritar.

Choosing to Die (2011)

Terry Pratchett Choosing to Die

Será que podemos ou devemos escolher nossa própria morte?

Sir Terry Pratchet, escritor britânico, é conhecido pelos seus diversos livros, a maioria em estilo de fantasia e comédia. Pratchett foi diagnosticado com a doença de Alzheimer em 2007 e, como muitos de nós poderiam pensar em fazer, se questionou sobre como iria morrer.

Em 2011, pela BBC, Pratchett participou de um documentário sobre morte assistida. Essa assistência é ilegal em muitos países, inclusive na Inglaterra. O documentário tem 59 minutos de duração e apresenta não apenas uma visão da morte assistida por quem decide tomar esse caminho, mas também mostra bastante da opinião do escritor sobre o assunto. Continuar lendo

Ao trabalhador

42 Poema ao trabalhador

“Keying Up” – The Court Jester por William Merritt Chase, 1874

Invisível serviçal
que oferece o sangue próprio,
pois só assim ganha o ópio
do trabalho manual.

A prostituída beleza
dos frutos do trabalho teu
é proscrita pelo fariseu
que a paga com avareza.

Mas eis que não sois santo.
Construístes um mundo sem igual.
Mas sobre o primeiro portal,
entoa um embriagado canto.

Queria ter mais valor
aos olhos de meu senhor.
Queria ter o poder
para desejar e fazer sofrer.
Queria ter mais tempo
para entregar-me ao vento.

Quando o topo alcanças,
mostra-se igual aos demais.
Castiga por temor seus iguais
e os sofreres se tornam lembranças.

As cifras que movem moinhos
aumentam os inúmeros vícios.
És o mesmo com outros suplícios,
adulterados, todos mesquinhos.

Amaldiçoado (2013)

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“Amaldiçoado” é um filme de 2013 baseado no livro “Horns” de Joe Hill. O filme estrela Harry Potter/Daniel Radcliffe (pois eu só conseguia ver como se fosse o Harry Potter) no papel de Ignatius Perrish, ou Ig. Continuar lendo

O Corvo (2012)

the-raven-1Há alguns meses escrevi sobre o filme “House of Usher“, baseado num conto de Edgar Allan Poe. De forma diferente, mas ainda assim evocando o mesmo estilo, há “The Raven” de 2012. O longa não é, no entanto, uma versão cinematográfica do conto homônimo do escritor.

Ao contrário de seguir a história do conto, temos o próprio Allan Poe como personagem. Acredito já ter visto anteriormente filmes assim e a série de investigação policial “Castle” segue a mesma linha no episódio piloto: um assassino em série está fazendo o que acha mais agradável imitando as mortes dos contos de Poe. Continuar lendo