A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Equus~

53 A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas ~Equus~

A viagem de Aguinon pelas Terras Ermas
~Equus~
Baseado nas pinturas de Zdzislaw Beksinski

Conta a lenda de Aguinon
que não houve nenhum outro igual.
Para alguns, santo; para outros, demônio;
para muitos, imortal.

Aguinon foi homem de barba acastanhada,
de roupa surrada e de cara amarrada.
Tinha um passo veloz que o fazia viajar
por sendas, vales, montanhas e mar.

Certa vez, quando era entardecer,
Aguinon viu algo de estarrecer.
Havia uma mulher sobre um cavalo na estrada,
mas estavam parados e ela jazia calada.

Aguinon se aproximou pedindo informações,
mas nenhum pode ajudar com as direções.
O cavalo era branco de crina preta e longa.
A cabeça só era osso, uma caveira oblonga.

A mulher pálida parecia mumificada
enquanto o cabelo obedecia à brisa mortificada.
No colo da mulher, uma boneca ficava,
e ela lhe apertava como se fosse sua escrava.

Aguinon se espantou com tamanha cena,
quem deixara ali essa tristeza obscena?
Depois de observar resolveu prosseguir
queria informações que lhe permitissem seguir.

Chegou então a uma cidade destruída.
Mendigos nas ruas com a face esculpida.
Vendo tamanha fome e dificuldade,
ele se aproximou com muita humildade.

Aos portões perguntou a um cidadão:
– Olá, amigo, pode me dar uma informação?
O que é aquela estátua de um cavalo e uma mulher morta
que está na estrada, quase aqui na porta?

O homem sobressaltou-se e começou a tremer,
Aguinon se assustou e o homem não podia crer.
– Aquele é o fantasma da mãe sem sorte,
quando ele aproxima, trás consigo a morte.

– Mas credes ser um fantasma mesmo?
Me parecia bem sólido, sem nenhum desmo.
– Creio sim, mas tu fostes o único a ver
com teus olhos o fantasma e sobreviver!

Aguinon partiu para o leste em pouco tempo,
mas quando afastou da cidade sentiu vir dela um vento.
Olhou para trás e viu na cidade então,
os cidadãos correndo em profusão.

Atrás deles vinha uma figura de longo cabelo
e o sangue de Aguinon tornou-se gelo.
O fantasma atropelava alguns habitantes
e colhia os corpos como se diamantes.

Ao continuar Aguinon se assustou outra vez.
Não esperava mais ver aquilo talvez.
Seu caminho então, com cuidado continuou
pois ali, a sua frente, a boneca encontrou.

Insônia

52 Insônia

A noite já chegou há muito tempo.
As trevas já invadem meu quarto.
Mas a realidade não tem pausa.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Os olhos vermelhos que não se cerram
lacrimejam com o bocejar constante
mas não se fecham, não sonham.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Ah, terrível estado de espírito!
Eis que o tempo passa mas nada é produzido
e o alvorecer já desponta em grande espetáculo.
Tic-tac, tic-tac… Triim!

De Lovecraft a Howard

Mais uma dupla de contos.

A Coisa no Telhado (Robert E. Howard, 1932)

Antigos povos, amaldiçoados com a extinção, e seus deuses esquecidos escondem em um templo em Honduras, um mistério que jamais deveria ser solucionado. “A Coisa no Telhado” não é exatamente um conto de terror, embora se encaixaria com perfeição no gênero caso fosse mais extenso. O narrador conta um episódio que lhe aconteceu no início do século XX. Um aparente rival dele pediu-o ajuda para conseguir um livro denominado “Cultos sem nome”. Segundo ele o livro misterioso contaria sobre um possível tesouro de um povo extinto no Yucatán. O autor do livro morrera de forma inexplicável e diversos exemplares da primeira edição foram queimados pelos seus donos, horrorizados. Benevolente, o narrador resolve ajudar o rival, Tussmann, a conseguir o livro e depois o visita para saber como fora a expedição ao templo na América. O relato é completado de forma entusiasmante por uma inesperada visita no telhado.

Robert E. Howard é o gênio por trás de histórias como “Conan, o Sumério” e “Solomon Kane”. Viveu apenas 30 anos, tendo parte de seu trabalho sido publicada postumamente. Howard era amigo de H.P. Lovecraft, comunicando-se por correspondência. “A Coisa no Telhado” é um de seus contos que se assemelha ao estilo lovecraftiano e é coerente com o universo de Cthullu.

10 Lovecraft e Howard (1)

O conto (em inglês) pode ser baixado gratuitamente, graças ao Projeto Gutenberg, no link http://gutenberg.net.au/ebooks06/0608011.txt.

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The Outsider (H. P. Lovecraft, 1921)

“The Outsider” é um conto não propriamente de terror, antes suspense. O protagonista, por algum motivo isolado de qualquer contato humano, narra sua aventura ao tentar deixar o antigo castelo abandonado em que habita. Ao fazer isso depara-se com um mundo totalmente novo. Diferente do que imaginava e via em livros nas estantes empoeiradas do castelo, os humanos com quem encontra não parecem gostar de sua presença. A conclusão é surpreendente pois, embora seja curto, o conto nos coloca no ponto de vista do protagonista, sobre o qual fazem-se assustadoras revelações no final. A forma da narrativa é tão descritiva como misteriosa. Tudo é a partir do ponto de vista do personagem, que claramente não está certo do que vê. As conclusões são indiretas e sequer são conclusões, mas deduções. A atmosfera mantem uma tensão crescente e a forma descritiva de Lovecraft, cheia de elementos misteriosos, se mostra brilhante.

Howard Phillips Lovecraft afirmou que “The Outsider” se aproxima do estilo de seu ídolo, Edgar Allan Poe, sendo uma imitação inconsciente do escritor.

10 Lovecraft e Howard (2)

O conto completo em inglês está disponível gratuitamente em:
http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/o.aspx

No site da ArmorGames há ainda um jogo point ‘n click inspirado no conto. Simples, mas bem feito e bem ambientado. Ótimo para depois de ler a história.
http://armorgames.com/play/11954/the-outsider

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Hai-kais e poemas psiquiátricos 2

51 Hai-kais e poemas psiquiátricos 2

Agorafobia

Lá fora, com todos eles,
só há sufoco e medo.
Aniquilação perigosa
em espaço aberto.

Claustrofobia

Desconfio de quaisquer
quatro paredes
sob um mesmo teto.
Só vejo prisão.

Fobia social

Milhares de críticas e julgamentos,
centenas de opiniões e tormentos.
Se não conheço, por que conhecer?
Sou feliz em meu lugar, sozinho a festejar.

Hipocondríase

Sobre a úlcera da Maria? Tenho duas.
Sobre a infecção do Luís? Por ora, só cinco.
Sobre o câncer da Genoveva? Já perdi a conta de quantos tenho.

Anorexia nervosa

Desde que tenho quarenta quilos,
nunca estive tão gordo.
Dobrarei as caminhadas
e alimentarei pela metade.

Hai-kais e poemas psiquiátricos 1

Um dos meus maiores medos era ficar louco. Achava pouco provável, mas se fosse possível eu temeria com certeza. Comecei a pesquisar sobre alguns transtornos mentais e, para minha surpresa, descobri que é muito tênue a linha que divide o normal do anormal, o sadio do doente. Pesquisando sobre vários resolvi elaborar esses hai-kais e poemas inspirados nos transtornos que li sobre.

50 Hai-kais e poemas psiquiátricos 1

Depressão Maior

Com membros fracos.
Sem sentido, é tudo cinza.
Não há mais vontade…

Transtorno Bipolar

Entre sombras foscas
de desamparo e decepção,
surgem momentos coloridos e imensa agitação, aberrante e desvairada, a pular na multidão, como se fosse um eterno dia com a maior promessa já feita à humanidade.

Esquizofrenia

Tendas abissais
de peixes coloridos
rondam o sono vazio.

Transtorno de Pânico

Um momento
que de repente explode
em terror silencioso.

Transtorno Obssessivo-Compulsivo

Linhas certas,
nunca tortas.
Ordenadas.

Fogo, areia e sal

49 Fogo, areia e sal

Palha sobre palha,
o tempo há de apagar.
Areia sobre areia,
o tempo há de apagar.
Tábua sobre tábua,
o tempo há de apagar.
Pedra sobre pedra,
o tempo há de apagar.
Ferro sobre ferro,
o tempo há de apagar.
Lembrança sobre lembrança,
o tempo há de apagar.
Só não se apagará da minha mente
aquele momento de sol poente.
Nem que chova fogo do céu,
ou que o mar se torne areia e sal.
Não se apagará da minh’alma
jamais.

Wolf Children (2012)

wolf-children-1Após conseguir o filme “Wolf Children” demorei meses até realmente assisti-lo. Longa-metragem de 2012, a animação japonesa explora bem tanto elementos do cotidiano quanto do fantástico. A animação conta com a direção e roteiro de Mamoru Hosoda, mesmo diretor de Summer Wars. Continuar lendo

Havia um abismo no meio do caminho

48 Havia um abismo no meio do caminho

Encontrei um abismo em meu caminho.
Procurei avistar o que havia em seu fundo,
mas nada meus olhos puderam ver.
Comprei luzes e lanternas e joguei-as todas
mas nada consegui distinguir.
Esperei que a luz do Sol o iluminasse,
mas ela não pode penetrar-lhe a escuridão.
Enfim desisti de tentar entender.
Joguei-me em suas trevas e ali estou até hoje.
Entendi que não havia um abismo em meu caminho,
mas que ele era parte do percurso.
Um túnel encontrei. No túnel ainda estou.
Não faço ideia de onde irei chegar,
mas chegarei.

The Sad And Crazy Story Of Minnie The Moosher

Ouvi essa música pela primeira vez em um episódio de “Jeeves and Wooster”, série britânica com Hugh Laurie e Stephen Fry. É um típico jazz do início do século XX, inclusive pela letra cheia de gírias. Cab Calloway aparece cantando essa música no filme “The Blues Brothers”, de 1980. Ele teve seu auge na época em que não bastava cantar na televisão em preto e branco, mas também dançar.cab-calloway-c32-whitetails-1a-crop12[1]

Aprendi na internet parte do improviso de Laurie e o restante… improvisei. Essa é minha interpretação de “Minnie the Moosher” de Cab Calloway, com uma pitada de Jeeves and Wooster. O longo nome (“The Sad And Crazy Story Of Minnie The Moosher And Her Heart As Big As A Whale”) é uma referência aos nomes de obras antigas, que muitas vezes eram gigantes. Se fosse uma versão com um ar mais contemporâneo, eu chamaria apenas de “Minnie”.

O vídeo tem os ratinhos dançantes de um episódio antigo de Tom e Jerry, da época em que eles não eram nem gato e rato.

Quietude

47 Quietude

Às vezes,
nos barulhos do mundo
tudo o que busco
é um pouco de silêncio.

Procuro um local calmo,
nem frio e nem quente,
nem úmido e nem seco,
onde eu possa sentir a mim mesmo.

Sinto que só desejo
fechar os olhos e mergulhar.
Mergulhar, mergulhar…
Numa imensidão vazia, inexistente.

Vontade oculta e profunda:
O silêncio da manhã de primavera.
A calma do crepúsculo de inverno.
As madrugadas das noites ao luar.