Os filmes têm muitos elementos que os definem e, a partir deles, é possível analisá-los e avaliá-los. Ocasionalmente, alguns diretores artistas tentam inovar alterando tanto a forma quanto o conteúdo desses elementos. Em “Dogville”, dirigido e escrito por Lars von Trier, a inovação é a forma de mostrar o ambiente. No filme os cenários são mínimos.
Semelhante ao teatro ou mesmo mais minimalista, o longa-metragem se passa na cidade de giz chamada Dogville, tão pequena que todos se conhecem e não há prefeito, polícia e tudo é resolvido por votação. A história possui um prólogo aonde são apresentados os moradores e nove partes. Há uma loja, uma igreja, uma mina e casas na cidade, povoada por um povo simples e que se mostra muito bondoso. No primeiro capítulo surge Grace (Nicole Kidman), uma bela mulher da cidade que está fugindo de gangster. Ela encontra Tom (Paul Bettany) e pede ajuda a ele para fugir, ao que ele responde oferecendo para deixar Grace morar na cidade e se esconder lá. Temendo que algum morador resolva entrega-la a polícia ou aos gangster, Tom, em reunião com os habitantes, propõe que Grace fique na cidade ajudando quem precisar por duas semanas. Terminado esse tempo, eles fariam uma votação para decidir se ela poderia ficar lá ou se seria mandada embora.

Durante alguns capítulos Grace é muito bem tratada pela minúscula população. Mas o objetivo do filme, segundo von Trier, é que “evil can arise anywhere, as long as the situation is right” (o mal pode surgir em qualquer lugar, contanto que na situação haja o bem). Em algum tempo os moradores passarão a criticar e abusar do trabalho de Grace que, não podendo fazer nada contra eles, se resigna. Surge então um terrível dia em que uma criança, deixada aos cuidados de Grace, começa a implorar para que ela o castigue, agredindo-o. Ela sabe que a mãe não aceitaria tal tratamento mas, ameaçada pela criança de fingir um espancamento, ela cede. Em pouco tempo surge um fazendeiro, pai da criança, que afirma ter chamado a polícia e que, caso Grace queira que ele fique em silêncio, não deve resistir aos avanços dele. Esse, porém, é só o começo.
Em algum tempo, todas as mulheres da cidade maltratam Grace e abusam de seu trabalho, enquanto todos os homens, exceto Tom, a estupram. E tudo em troca do silêncio com o qual todos concordaram. Há uma parte em que Tom oferece para pegar dez dólares emprestados com o pai para que ela possa subornar o dono da caminhonete a levá-la escondida para outra cidade. O motorista, durante o percurso, afirmando que há muitos policiais na estrada e que há muitos riscos exige mais dela, abusando dela na traseira da caminhonete. Algumas horas depois a lona da carroceria é removida e ela se vê em Dogville novamente. Lá o dono do veículo afirma que ela se escondeu sem o consentimento dele, e ela ainda é acusada de roubar dez dólares do pai do Tom.
Eles prendem ao pescoço de Grace um sino e uma corrente, presa a uma roda de ferro que ela é obrigada a arrastar. O que mais me irritou nessa parte foi o fato de Tom, quem deu o dinheiro para ela, convencer todos que ela, e não ele, roubou a nota. O impressionante é que ele usa de vários argumentos estúpidos, frutos de uma lógica fraca e débil, para se justificar. Grace, nesse momento, é incapaz de argumentar contra ele e afirma que o ama. Ele diz que também a ama (embora ele sabia dos estupros e abusos mas preferiu não falar).

Devido a toda a tensão gerada pela desconfiança em Grace, durante uma reunião dos moradores, decide-se vendê-la aos gangsters. E é nessa parte que eu vou parar de falar sobre a história.
Os cenários são compostos por paredes desenhadas no chão, portas imaginárias e alguns itens de mobília. Talvez o objetivo dessa “experiência” tenha sido focar nos personagens, sem permitir que o ambiente distraia quem assista ao filme.
Houve críticas a “Dogville” devido a ideia de uma mensagem anti-norte-americana. Isso, para este autor que vos fala, é uma grande besteira. Lançado em 2003, o filme dinamarquês recebeu treze prêmios na Europa e mesmo no Brasil.

Nome original: Dogville.
Duração: 178 minutos.
Ano: 2003
Nota:
