Escrever

Acho estranho poder escrever algo, transmitir um sentimento ao texto e depois ler e recordar o mesmo sentimento. Para mim é muito recorrente uma sensação ao ler algo que escrevi: repulsa. Nada do que escrevo e leio posteriormente considero bom. As vezes isso me causa frustração, pois existem tantos escritores bons que produzem textos que aprecio francamente. Porém, não consigo apreciar nenhum texto que escrevo. Seria eu um mal pai? Escrevo e idealizo meus filhos projetando neles minhas emoções. Emoções que às vezes desprezo, às vezes me dão orgulho. Mas depois, saem todas as linhas tortas e sem sentido, pouco coesas, tal qual filhos problemáticos precisando de orientação. Revejo assim meu sentimento transcrito em palavras e, praticamente sempre, o critico. Entretanto, se são filhos difíceis, me faria um bom pai ajudá-los a se resolverem? Talvez. Logo, tento melhorar o texto, dar-lhe uma impressão melhor. Mas até hoje nunca me dei por satisfeito e me questiono se realmente serei capaz de redigir algo que goste de ler depois.

Uma hipótese que explica esse desgosto é a de que, um texto é bom para mim se ele é desconhecido e, ao lê-lo, vou o conhecendo e percebendo suas nuances, desvendando-o. Quando escrevo, em geral, tenho tudo na cabeça e lá parece tudo melhor. Em seguida, ao ler o que escrevi, me parece que perdi tempo digitando ou escrevendo aquelas parcas linhas. Esse texto é um exemplo. O construí, li, reorganizei algumas ideias mas continuo não gostando dele. Não sei porque ainda insisto em não apagá-lo. Desculpe, texto.

Desabafo

6 Desabafo

O que eu não consigo entender,
É como isso aconteceu tão rápido.
Tudo que fiz, se fiz por você,
Definhou em seu leito agora, pálido.

Sumiu igual ao vapor que se eleva.
Passou veloz como um sopro cálido.
Como o frio aqui dentro, onde já neva.
Assombrou como um atormentado.

E todo o tempo que a isso foi dado,
Sorrisos, desabafos, tristezas,
Hoje é sombra de um tempo dourado.

Concebido da ideia de aliado,
Nasceu da pergunta com certeza,
Por sua resposta foi envenenado.

Antigas Histórias

“Antigas Histórias” é uma música que fiz inicialmente para piano. Ela nasceu por acaso, entre partituras eruditas e músicas populares. Graças aos recursos de bancos de sons, pude fazer além do piano, tanto o violino quanto a flauta nesse projeto. A ideia, depois de ter desenvolvido o tema, era fazer algo que soasse clássico.

Lugar Nenhum – Neil Gaiman

Neverwhere-capa

Qual a semelhança entre estações de metrô, Atlântida, poderes mágicos, ratos falantes e um possível apocalipse? A resposta é Neil Gaiman. Em 1996 Neil Gaiman escreveu para a BBC o roteiro de uma minissérie de televisão chamada “Neverwhere”, que foi também adaptada para um livro pelo próprio Gaiman no mesmo ano. Traduzida como “Lugar nenhum”, a obra traz o excelente estilo 50% louco, 50% irônico e 140% envolvente que é típico do escritor.

A história começa com a vida normal de Richard Mayhew. Funcionário engravatado de uma empresa londrina nos anos 90, embora tenha crescido no interior da Inglaterra, ele acorda cedo, pega o metrô, bebe do café ou do chá horrível do escritório, sai com a noiva para se divertir e faz tudo que se pode considerar normal. Uma noite, porém, acompanhado pela noiva e no caminho para um restaurante, ele encontra uma jovem caída na calçada, sangrando. Apesar da insistência de sua noiva, Jessica, para que deixe a garota que mais parece uma mendiga, Richard resolve ligar para a emergência. A garota, semi-consciente, implora para que ele apenas a deixe descansar e que a tire dali pois ela corre perigo. O funcionário pacato acaba aceitando, levando a garota para casa na esperança de protegê-la e cuidar dela, mesmo com Jessica dizendo que isso representaria o fim do noivado.

Na manhã seguinte surgem dois indivíduos misteriosos na porta de Richard, procurando uma garota que dizem ser louca e que, pela foto que eles trazem em um cartaz de “Procura-se”, é a garota machucada. Eles invadem o local, apesar da indignação do protagonista, mas não a encontram. Ela simplesmente sumiu. Quando vão embora, a garota reaparece, mas pede que ele vá procurar um amigo dela. Bondoso, mas um pouco arrependido por se envolver tanto, Richard aceita a tarefa e traz o amigo da garota, chamado Marquês de Carabas. No caminho o Marquês explica que a garota se chama Lady Door, filha de uma importante família para… Londres de baixo. Como se não fosse nada demais, o Marquês leva Richard para uma porta que, magicamente, dá passagem para dentro do armário de faxina do prédio do protagonista.

Existe Londres. E existe “Londres de baixo”, uma espécie de submundo para onde os mendigos e outros indivíduos desabrigados vão. Lá eles podem fazer comércio com desde ratos a seres sobrenaturais mais antigos que a civilização humana. Nessa Londres há nobres, duques, marqueses e condes importantes que governam regiões. Seus habitantes, porém, só podem ser vistos na “Londres de cima” quando interagem com algum indivíduo de cima e, mesmo assim, logo as pessoas esquecem que falaram com eles.

Em seguida, após a vinda do Marquês para levar Lady Door em segurança, Richard percebe que algo está errado. Ninguém mais o vê! Os táxis não param para ele, as pessoas não o notam, nem mesmo a porta do metrô o detecta. O protagonista simplesmente deixou de existir na “Londres de cima” e passou a ser da “Londres de baixo”. Richard perde o emprego, a casa, a noiva (não que já não tivesse perdido Jessica antes) e tudo o que possuía. Ele decide então procurar Lady Door. Ela deve saber como devolver a vida dele. Ou, pelo menos, é o que ele espera.

Ao longo do livro é explicada a recente morte da família de Door pelas mãos dos dois homens que a procuravam e que estavam, na verdade, caçando-a, chamados Senhor Croup e Senhor Vandemar. Assassinos profissionais, ambos foram responsáveis pela Peste Negra e várias calamidades. Door decide então buscar a verdade por trás dos assassinatos e vingança. Para isso contrata Hunter, uma lendária guerreira da “Londres de baixo”, como guarda-costas. Há ainda o anjo Islington, que mora nos subterrâneos de Londres e, ao encontrar com Lady Door, pede a ela que lhe traga uma chave especial. Com tal chave, ele poderia ajudar Door em seus objetivos e, ainda, devolver a Richard sua vida normal.

O nome de Door, ainda, não é ocasional, ela pertence a família Portico, onde todos tem o dom de abrir qualquer porta (ou mesmo coisas que não sejam portas ou que não deveriam, em tese, ter capacidade de “abrir”).

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Neil Gaiman

No livro Neil Gaiman faz várias brincadeiras com nomes de lugares em Londres. Blackfriars, uma estação e uma ponte de Londres, dá nome também ao local onde os protagonistas encontram Monges Negros; Em Earl’s court eles entram em uma vagão de metrô vazio que, na verdade, leva à corte de um Conde de “Londres de baixo”; Já a ponte Knightsbridge se torna Night’s bridge, uma ponte tranquila na Londres de cima, mas perigosa na de baixo. A ideia do urbano, sujo e subterrâneo formarem todo um novo mundo, incógnito à superfície, é brilhante (o que é um tanto paradoxal devido ao “sujo”) e não deixa a desejar para os fãs de Gaiman. O estilo da narração é pouco descritivo, tão fluido que se passa de uma página a outra (ou de um capítulo a outro) como se o vento soprasse as páginas. Difícil largar o livro enquanto houver qualquer frase não lida.

Além da série de TV de 1996, foi feita uma versão em quadrinhos em 2005. Há ainda uma versão em áudio que foi ao ar na rádio da BBC em 2013, contando com as vozes de Benedict Cumberbatch e Christopher Lee. Apesar do fim da história permitir uma continuação e de já ter tido várias ideias para elas, Gaiman comentou que não pretende escrever uma sequência.

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O Castelo – Franz Kafka

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Em uma das muitas visitas que fiz a livrarias, quase à meia-luz típica de tais estabelecimentos quando querem se fazer requintados, encontrei sobre uma pilha de livros desarrumada, uma edição integral da Abril de “O Castelo” (Das Schloss), escrito por Franz Kafka. Não resisti a comprar aquela preciosidade de capa dura e preta, com letras douradas e do tamanho de um pocket.

Franz Kafka

Nascido em 1883 na cidade de Praga, Áustria-Hungria (atual República Tcheca), o autor é bem conhecido pelo estilo surreal de suas histórias. Exemplo disso são “O Processo”, o tão conhecido “A Metamorfose” e, claro, “O Castelo.” No primeiro ele trata de um indivíduo que está sendo processado mas nunca lhe é revelado o porque. Já no segundo narra a história de um homem que se transforma em uma criatura semelhante a um inseto. Essas duas histórias foram produzidas por volta de 1915, quando a primeira guerra mundial já começara a assolar a Europa.

O Castelo, entretanto, teve sua produção iniciada em 1922, dois anos antes da morte de Kafka, e foi publicado postumamente. Assim como outros trabalhos, não foi terminado e há dúvidas se ele o terminaria caso tivesse mais tempo. A história foi interpretada de diversas maneiras. Uma delas, que para mim é a mais condizente após ter lido o livro, é a de que se trata de uma crítica a burocracia. Isso é perceptível pelas diversas dificuldades enfrentadas pelo protagonista serem por causa de documentos, formulários, protocolos… etc. Uma análise mais aprofundada, porém, permite perceber que sob essa camada de burocracia, o autor lida com questões simples como a incapacidade de resolver questões oficiais, solidão, discriminação, ignorância, emprego, segurança e bem-estar.

No primeiro dos 25 capítulos do livro é narrada a chegada do protagonista a vila. Ele, entretanto, não tem seu nome revelado em momento algum, sendo chamado por todos apenas pela inicial “K.”. O personagem fora contratado como agrimensor pelo Castelo, pertencente a um conde. Tal informação é confirmada pelos funcionários do nobre, mas, estranhamente, nenhum trabalho específico é designado a K. e nem lhe é permitido ir ao Castelo. São enviados a ele dois assistentes, Arthur e Jeremias, que acabam irritando e atrapalhando frequentemente o agrimensor ao, inocentemente, desobedecê-lo ou ignorar suas ordens. Em meio a tal situação, ambientada em uma vila pobre e nevada, ele deposita suas esperanças em Barnabás, mensageiro do Castelo que poderia ser sua ligação com os blindados funcionários. O protagonista acaba se envolvendo com Frieda, garçonete de uma taverna, que deixa seu emprego para ficar com K. O romance surge após uma noite de amor no chão sujo da taverna e cresce de uma forma um pouco artificial, quase doentia. O agrimensor então descobre que Frieda era amante de um funcionário de alto escalão, chamado Klamm, e tenta, sem sucesso, falar com ele para que possa resolver sua situação. Após consultar o prefeito do vilarejo, que afirma que tudo não passa de um mal entendido e que um agrimensor não é necessário, K. aceita trabalhar como zelador na escola da vila enquanto tentará, diversas vezes, encontrar uma brecha nos protocolos que o impedem de exercer sua profissão. Durante todo o tempo o protagonista, imerso em um ambiente hostil de dificuldades, indiferença e burocracia, é acusado de ir contra os costumes da vila, mesmo que isso nunca tenha sido explicado a ele previamente, podendo apenas ouvir tais críticas. Surgem traições, burocracia, mentiras e outros diversos elementos que constituem o fundo tenso e cheio de aflição pelo qual passa K.

É interessante notar que o Castelo é citado como algo distante, como se lá fosse um mundo diferente, onde tudo funciona com base nos perfeitos protocolos. A construção é retratada de forma misteriosa, envolto em neblina e com um silêncio sepulcral. Uma silhueta recortada no horizonte. Contudo, seu interior mal é descrito e a autoridade do conde raramente é mencionada.

O livro vale a pena pela experiência, pois é sem dúvida um sabor singular, completamente diferente de qualquer outro que já li. Embora possa ser um pouco cansativo pelas extensas e densas falas, as situações são tão incomuns que, nem que seja por sentir-se desafiado, tem-se vontade de chegar ao final do livro.

Diversas adaptações da história foram feitas. Há um filme alemão de 1968, um de 1997 e uma adaptação russa de 1994.

Menina do Tempo

"A ironia de se viver num lugar inito, estando acorrentado a uma servidão milenar. de manusear a vida de todos os seres, mas nascer e morrer sozinho. De ser um guardião do tempo, e não ter tempo pra viver. Isso é a realidade de todas as Meninas do Tempo. Todas exceto Carttier."

“A ironia de se viver num lugar infinito, estando acorrentado a uma servidão milenar. De manusear a vida de todos os seres, mas nascer e morrer sozinho. De ser um guardião do tempo, e não ter tempo pra viver. Isso é a realidade de todas as Meninas do Tempo. Todas exceto Carttier.”

Em novembro de 2013 ocorreu em Belo Horizonte a oitava edição do Festival Internacional de Quadrinhos (ou FIQ para os íntimos). Tanto visando prestigiar alguns amigos meus, estudantes de cinema de animação na Universidade Federal de Minas Gerais, quanto adquirir um volume do mangá que tantas vezes vi eles trabalhando, fui ao festival.

Comprei lá um exemplar de “Menina do Tempo”, com arte de Delvan Souza, argumento de Giovanna Bianchini e a colaboração de Daniel Medina e de Fernanda Mamede, entre outros. Conheço esse pessoal e sei que o trabalho deles não iria desapontar.

A história trata de meninas que vivem em alguma espécie de dimensão alternativa onde há uma infinidade de relógios flutuantes e uma grande ampulheta, sobre a qual cresce uma árvore que se conecta com o nosso mundo. Aparentemente só pode haver uma menina do tempo, que representa a hora (9h, 10h, etc…). A história de duas delas, porém, é abordada a partir do ponto em que viajam para nosso mundo e caem em uma floresta de pinheiros, localizada em uma ilha.

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A primeira delas chega a ilha e acaba, sem querer, ajudando um homem que estava perdido a encontrar seu barco. A outra chega a mesma ilha 1.000 anos depois e encontra com Ray, Bia e Alois. Ela se torna amiga deles e, adotando o nome de Carttier, passa a descobrir a história de seus novos amigos. O que não se esperava era que a estadia da menina do tempo na ilha tivesse um preço tão caro quanto misterioso.

O traço é forte e bem trabalhado, mas possui a fluidez necessária para mostrar a movimentação necessária. Os cenários, nem sempre representados por completo, trazem a sensação de solidão, de estar incompleto. Isso é ainda reforçado pela própria ambientação em uma floresta de grandes pinheiros nevados e uma casa isolada em meio as árvores.

Quem se interessar pode entrar em contato com os autores pela página http://www.facebook.com/MeninaDoTempo. A versão impressa foi editada pela Crânio Quadrinhos, sendo que fiz questão de conseguir o autógrafo dos autores.

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StarDust (2007)

Nota 5/5
Quando eu li a sinopse sobre esse filme, logo achei que seria um água com açucar romântico: um jovem promete para sua amada que irá buscar uma estrela cadente que ambos viram cair no horizonte. A história, entretanto, é de ninguém menos que Neil Gaiman. De forma fascinante, o escritor do livro homônimo consegue fazer uma história que não é nada água com açúcar, e sim uma grande obra. Tudo começa na cidade de The Wall, Inglaterra, onde há um muro que faz a divisão com o reino mágico de Stormhold. A tradição do reino é que o herdeiro do trono será o príncipe que estiver vivo, sendo para isso permitido que um príncipe mate os próprios irmãos. Mas, rompendo com a tradição do reino,estavam vivos três filhos no leito de morte do rei. Dessa forma, o rei usa de seu amuleto mágico para provocar a queda de uma estrela (a estrela cadente vista pelo jovem Tristan Thorn, protagonista da história) e propôs uma competição: aquele que recuperar a estrela será o novo rei. Em outra região, contudo, três rainhas bruxas percebem a queda da estrela e almejam seu coração, capaz de, ao ser devorado, garantir juventude e longevidade. O interessante do filme (que parecia ser previsível) é que a estrela assume a forma de uma mulher, passando assim a ser caçada pelos príncipes, pelas bruxas e pelo jovem apaixonado. Essa busca alucinante se mostra, na verdade, muito mais que um mero filme pra família, mas uma grande e fascinante história, que merece ser vista várias vezes.

O poema do escocês

O poema do escocês

Aonde está meu amor?
– Diz o bravo escocês
Destruído pela dor!
Na pele dela, a palidez

O seu amor morreu, respondem,
E não há nada a fazer.
E ao escocês impedem
De os assassinos fazer sofrer.

E esse bravo escocês começou uma confusão,
E eu não faria diferente…
Tudo por causa de uma ferida no coração,
Pois guardo aqui também uma chama bem ardente.

E os olhos brilhantes como esmeraldas Já não se iluminam mais…
E sua pele branca, já não brilha como os cristais E de flores são suas belas grinaldas.

Eu mesmo com o escocês hei de me comparar,
Pois um amor tenho, e dela não pretendo me separar
E por ela causaria imenso turbilhão
Mesmo que tudo venha a ser em vão.

Meu amor por ela um dia hei de demonstrar
E como o escocês com ela sempre irei ficar

E mesmo que o poema perca o seu foco
Para mim não muda dessa maneira
Pois o poeta sou eu e fazer o que quero posso
No fim, peço perdão por te fazer ouvir essa asneira