Feliz ano novo!

Mais um ano acabou e outro está para começar.

Em nome do site Arte em Progresso, gostaria de desejar feliz ano novo e um ótimo 2014 a todos os nossos leitores, assíduos ou ocasionais. Que nesse ano ninguém tenha que lavar muito o convés ou andar na prancha, marujos!

Esperamos muito mais postagens em 2014, curtidas, comentários e, principalmente, arte.

Feliz ano novo!

Feliz ano novo!

Jazidas do Tempo

5 Jazidas do tempo

Não se aproxima o tempo de recomeçar
A batalha nem de longe já foi perdida
É, na verdade, tempo de continuar
Não esgotou-se nessa hora suave a jazida

Durante um incansável ano procuramos
Encontramos, perdemos e tanto sonhamos
Foram muito mais de mil pedras preciosas
Foram muito mais de mil lembranças jocosas

Agora o sentido que se eleva e impera
É de um ano filtrado por nossa memória
Enquanto a nós resta apenas a longa espera.

De trezentos e sessenta e cinco melhores
oportunidades vivas e não ilusórias,
para achar mais histórias de todas as cores.

Feliz 2014.

Drácula – Bram Stoker

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Há um bom tempo atrás eu ouvi de um tio a história do Drácula. Não o Drácula adaptado e distorcido, escarrado pela mídia sob as mais bizarras formas, mas sim o verdadeiro vampiro do fundo dos séculos. Na época ele me narrou somente a versão do filme de 1992, “Bram Stoker’s Dracula”. Mas eu pretendia, algum dia, ler o livro. Finalmente consegui uma edição da L&PM que me dispus a ler assim que a faculdade permitisse e posso considerar o titulo um dos melhores que já tive o prazer de ler.

Originalmente publicado em 1897, o livro é narrado em diversas primeiras pessoas, pois é semelhante a uma coleção de cartas entre alguns personagens e, também, algumas notas importantes. O autor soube manusear isso muito bem, de modo que ao ler as cartas e notas é possível construir uma versão eficaz da história.

O Drácula começa com Jonathan Harker viajando a Transilvânia para negociar a venda de um terreno na Inglaterra ao Conde Drácula. A descrição da viagem e do castelo é de perder o fôlego e deixar qualquer um preso as páginas. A ambientação criada por Stoker é simplesmente assustadora, não deixando de fazer com que o próprio leitor se sinta perdido e solitário em uma carruagem a noite nas paisagens ermas dos bosques nevados da Transilvânia, com um cocheiro de olhos vermelhos silencioso e o uivar dos lobos não muito longe. O castelo mal cuidado do conde, desprovido de servos e faxineiros, também é descrito de forma notável. Durante suas andanças escondidas pelo castelo Harker é capaz de narrar o que vê de tal forma que chega a ser quase possível sentir as pedras frias das velhas paredes da fortaleza.

O interessante é que mesmo para quem não conhece a história, mas sabe sobre as lendas dos vampiros, é possível se deliciar vendo tais lendas serem retratadas ao longo da história. O fato do vampiro entrar em chamas a luz do sol, não possuir reflexo, evitar água benta e outros itens abençoados é mostrado aos poucos, com maestria.

Outros importantes personagens são Mina Harker, noiva/esposa de Jonathan que terá importante papel no desenrolar da trama. É graças as anotações dela que grande parte da história flui e muitas pistas são descobertas. Outro personagem é o Dr. Abraham Van Helsing, que ao contrário do Van Helsing do filme homônimo, não é um guerreiro mas sim um médico, advogado e professor. Ele será a peça capaz de fazer frente ao Conde Drácula, mesmo duvidando da existência de criatura tão poderosa. Suas pesquisas na Holanda e seus contatos na Igreja Católica e em universidades da Europa Oriental vão lhe valer grande ajuda para confrontar o vampiro. Há ainda Lucy Westenra, amiga intima de Mina e se torna uma das primeiras vítimas do vampiro na Inglaterra. Lucy foi pedida em casamento por três cavalheiros no livro: o lorde Arthur Holmwood, o texano Quincey Morris e o Doutor Seward. Todos os três vão ajudar a compor o grupo que caçará o conde.

É interessante notar que quando os personagens conseguem se articular e trocar informações, a história vai se revelando para eles também, o que permite que entendam quem é o conde, o porque dele estar ali e como fazer para derrotá-lo.

O livro se desenrola lentamente durante o tratamento de Lucy e as investigações na Inglaterra, mas quando os personagens conseguem acuar Drácula e ele resolve fugir para a Romênia, sua terra natal, começa uma desenfreada perseguição. Utilizando trens, carruagens, cavalos e barcos, o grupo vai tentar impedir que o conde chegue ao seu castelo, além de ter que lidar com as três noivas vampiras de Drácula. O final é, sem dúvida, impossível de ser lido em partes. Deseja-se sempre ler mais, até a última gota de sangue.

Esse é um vampiro de verdade!

Piano de Avião

Piano de Avião é uma gravação que fiz há mais de um ano e é um livre rearranjo dos acordes de “Samba do Avião”, de Tom Jobim. Apesar do inicio calmo, logo se torna mais sincopada e agitada. Tal como em uma viagem tranquila de avião em que, quando tudo vai bem, surge a turbulência. Mas como em toda tempestade, logo em seguida vem a calmaria.

Fica aí minha homenagem ao bom e velho Tom.

A Magia de Escher

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Esse final de semana, mais precisamente sábado, visitei a exposição “A Magia de Escher” no Palácio das Artes, Belo Horizonte, MG. Apesar das várias horas na fila, gigantesca devido ao fato de ser o penúltimo dia de exibição da obra do artista holandês, a espera valeu a pena. Havia duas salas com as obras de Maurits Cornelis Escher, estando ambas, no dia, lotadas. Mas mesmo com a disputa para ver as ilustrações, filmes e objetos foi possível ficar estupefato com tamanha criatividade usada para concebê-los.

Escher nasceu em 1898, na Holanda. Desde pequeno teve muito envolvimento com trabalhos manuais, em especial com madeira. Estudou na Escola de Arte do Haarlem e logo ao formar, em 1922, mudou-se para a Itália e lá realizou as maiores obras de sua carreira. Passou anos fazendo viagens pelo país e desenhando paisagens. Tornou-se fascinado pela divisão regular do plano, formas simétricas e entalhe. Entretanto, ele ficou mais conhecido por suas ilustrações paradoxais, retratando arquiteturas impossíveis de serem concebidas no mundo tridimensional. É muito comum em seus trabalhos o conceito de infinito, simultaneidade, contrastes, jogos de sombras e metamorfose. O artista faleceu em 1972.

É interessante reparar que várias de suas ilustrações bebem da geografia italiana, mesmo aquelas que não são unicamente paisagens. Castovalva, Atrani, Barbarano são apenas algumas das regiões retratadas pelo holandês. Algumas são litogravuras, enquanto outras são xilogravuras, produzidas a partir de entalhes em placas de madeira.

Dos trabalhos de Escher, os que achei mais interessantes são: Autorretrato em esfera (1935), que me deixou intrigado quanto a originalidade em fazer um auto retrato distorcido pela convexidade de uma esfera; Metamorfose 1 (1937), uma grande evolução por meio de figuras que se transformam gradativamente e acabam voltando ao ponto inicial; Dia e Noite (1983), que me lembrou muito o contraste presente em tantas de suas obras, metaforizado em uma especie de jogo de xadrez, luz e sombra; Eye (1946), que ao menos para mim remete a ideia de que estamos a olhar para a morte o tempo todo; Other World (1947), uma obra fantástica com diversos ângulos de um mesmo poço espacial; Drawning hands (1948), a clássica imagem das mãos que se desenham; House of Stairs (1951), que estando povoada por simpáticos seres distorce os conceitos de posição e a gravidade, sem distorcer a luz; Relativity (1953), que se assemelha muito a Casa das Escadas; Print Gallery (1956), que é uma espécie de Inception; o famoso Belvedere (1958); Flatworms (1959), só por causa das audaciosas planárias (!!); Devils and Angels (1960), que me pareceu uma boa forma de representação do contraste, bem como do maniqueísmo; o também famoso Waterfall (1961), que dispensa comentários; e Moebius Strip II (1963), que chamou-me muito a atenção pela conceito do infinito, representado literalmente.

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Atrani, Coast of Amalfi 1931

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Autorretrato em esfera, 1935

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Other World, 1947

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Eye, 1946

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House of Stairs, 1951

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Flatworms, 1959

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Waterfall, 1961

Outro ponto alto da exposição é a interação com obras que remetem aos conceitos explorados por Escher, tal como o infinito. Parece simples conseguir o infinito: bastam dois espelhos bem posicionados, mas não deixa de ser divertido. Havia também uma representação da sala do artista, igual a do “Autorretrato em esfera”, que foi reproduzida não somente em tamanho como também em textura, semelhante aos traços da ilustração. Logo, toda a mobília da “sala de Escher” era manchada de preto e branco assim como na ilustração. Havia inclusive uma esfera metálica para que o visitante fizesse a mesma posição do autor.

Tendo a exposição acabado, as obras, muitas assinadas pelo próprio artista, voltarão para a Fundação M. C. Escher na Holanda, onde permanecerão quatro anos para conservação. Sem dúvida valeu esperar as duas horas na fila. E felizmente a fila não era uma ilustração do holandês, do contrário, certamente seria também infinita.

O Anatomista

o anatomista capa

Desde antes de ingressar em uma universidade, tenho mantido comigo um caderno no qual anoto sugestões de livros, filmes e qualquer outras informações sobre as quais eu queira pesquisar depois. Em uma das aulas na faculdade, acho que ainda em 2012, certo professor recomendou que procurássemos ler o livro “O Anatomista”, de Federico Andahazi. Agora, quase um ano depois, eu finalmente consegui esse título, tendo encontrado-o por acaso boiando em um sebo, entre um mar de outros livros. É pequeno, menos de 200 páginas e com linhas bem espaçadas. Na capa vê-se detalhe do quadro de Dürer, “Adão e Eva”.

A história de Andahazi tem como protagonista Mateo Realdo Colombo, professor de anatomia e cirurgião na Universidade de Pádua em 1558, catedrático que substituiu Vesalio (um dos “pais” da anatomia). O professor, entretanto, faz uma descoberta que acaba por valer-lhe um julgamento pelo tribunal da Santa Inquisição. Outro importante personagem é Mona Sofia, a mais bela prostituta do ocidente e a mais bem cotada de Veneza. Tendo sido sequestrada e vendida para uma escola de prostitutas quando bebê, onde cresceu, a profissão valeu-lhe rios de dinheiro vindos de ricos clientes. Sua vida é retratada pelo autor por meio tanto de cenas tristes quanto picantes. Em uma festa obscena em um palácio, o anatomista conhece a prostituta e, para sua infelicidade, por ela se apaixona. A terceira importante personagem é Inez de Torremolinos, mulher nobre que após a morte do marido dedicara a vida a caridade.

O livro desenrola-se no inicio lentamente, contando passagens da vida de cada um dos três personagens citados acima, chamados de uma “trindade”. Essa parte é um pouco vagarosa, mas ajuda na construção da identidade de cada um deles pelo autor. Há um caso interessante que cita o uso de ervas alucinógenas na subida do monte da Acrópole em Atenas por Mateo, durante uma viagem a Grecia, descrevendo as visões fantásticas que ele teve. Nesse ponto ele passa a ver-se como diversos personagens da mitologia grega e a exalta. Alucinação renascentista, eu diria.

Mais adiante na história o anatomista é convocado a ir até Florença, tratar de Inez de Torremolinos que estava doente. Ele, como cirurgião e médico, ordenado por uma autoridade, vai até ela. Durante o tratamento, que incluia vários exames físicos, ele acaba por descobrir um órgão na mulher, que passa a chamar Amor Veneris. Atribui a ele o controle sobre ela, bem como a origem de suas paixões e, por fim, argumenta eloquentemente sobre porque tal fato anatomico permite concluir que as mulheres não possuem alma. Tendo medo de que esse conhecimento caia nas mãos do demônio, o reitor da universidade de Pádua acusa o anatomista perante a inquisição. Ele, entretanto, queria usar sua descoberta para conquistar o coração de Mona Sofia.

Embora o desfecho tenha sido apresentado lentamente ao leitor e ainda de forma metafórica, não deixa de surpreender por, principalmente, dois motivos: a forma crua com que é narrado, escorrendo sofrimento pelas palavras; e pela maneira seca e pouco emotiva, retratando bem o sentimento de indiferença, vivida em época de guerras e peste, frente a morte. A descrição dos ambientes é pouca, quase tudo gira em torno dos eventos e do lado psicológico dos personagens. Mas o autor sabe, sem dúvida, usar as palavras de forma sarcastica e mordaz, o que dá um “tempero” a leitura.

Maldita nudez vermelha

Eu poderia dar inúmeras justificativas sobre porque fiz esta poesia e porque ela levou tanto tempo para ser feita. Mas prefiro não apresentá-las para não acabar entrando em detalhes…

4 Maldita nudez vermelha

Maldita nudez vermelha

É noite e faz frio aqui fora
Vejo a porta bem entreaberta.
Nas paredes o sangue se escora.
Minha visão se torna incerta.

Ao empurrar o portão colossal,
Por castiçais e velas acesas.
Tapetes rubros sem igual,
Mais vermelhos que framboesas.

Seu quarto adentro em seguida
A vida me trouxe consolo
E é com dolo que a vejo encolhida,
Atrevida. Sinto-me tolo.

Me chama com voz tão suave,
Tens a chave que mais me excita.
Qual proscrita, se entrega ao deprave
de quem desbrave seu corpo, maldita.

Valhalla Rising (O Guerreiro Silencioso)

Nota: 3/5

Aviso: esse filme é muito artístico. Pode ser difícil de compreende-lo, assisti-lo ou mesmo escrever sobre ele. A obra narra a história de One Eye, um guerreiro mudo, cego de um olho e de poder sobre-humano feito prisioneiro no ano de 1000 D.C. por um chefe nórdico. Como era de se esperar, ele mata os guardas, o chefe, os guerreiros, o xamã (e mataria mais se houvessem mais atores) e escapa. Junta-se, em seguida, à cavaleiros cristãos que partem para as cruzadas, embora nunca chegam ao oriente médio, desembarcando em uma terra desconhecida (que mais parece a América do Norte). Nesse momento, você, leitor, deve estar pensando “o que há de errado com esse roteirista? Ele nunca viu um mapa mundi?”. Parece que não. O filme, com duração de apenas 90 minutos, é dividido em 5 partes, denominadas Ira, Guerreiro Silencioso, Homens de Deus, A Terra Santa e Inferno (tradução livre). O filme é exageradamente violento e desenrola-se aos trancos: ora lento, ora rápido. Interessante notar que nenhum personagem tem nome. Há tomadas em paisagens belíssimas da escócia, aonde foi filmado, e a pouca quantidade de atores somados aos cenários inóspitos e nebulosos deixa um clima de solidão. Talvez represente a própria vida de One Eye e sua solidão e incapacidade de se expressar… ou é só pra deixar o filme mais tenso mesmo.

Detalhe que o protagonista é interpretado por Mads Mikkelsen, o atual Dr. Hannibal Lecter da série Hannibal.