
Um homem branco, por volta de uns quarenta anos, sentado na frente de uma máquina de escrever, um copo de café ao lado e a fumaça de um cigarro subindo em uma lenta espiral. Essa descrição, além de revelar vários preconceitos — dentre eles o machismo e racismo — persistiu por muito tempo no imaginário popular sempre que a palavra escritor era mencionada.
Ser escritore era algo para poucos.
A dúvida, no entanto, permanece: o que é ser escritore em 2021?
Há várias formas de tentar responder a essa pergunta. Se tentarmos uma abordagem mais filosófica, podemos usar uma frase do José Saramago (meu escritor favorito) que diz o seguinte:
“Na minha opinião, ser escritor não é apenas escrever livros, é muito mais uma atitude perante a vida, uma exigência e uma intervenção.”
José Saramago
Bonitas palavras, mas o que ele quis dizer com isso? Traduzindo em miúdos, que a escrita não é apenas um gesto mecânico e repetitivo, mas sim uma forma de olhar para o que nos cerca e traduzir o que vemos com as nossas palavras. Muitas vezes o que vemos não nos agrada, por isso precisamos tomar uma atitude. Será que consigo transformar o que vejo em uma crítica e introduzi-la em uma história? Se você já leu algum livro do Saramago, sabe que ele fazia isso como ninguém.
Apesar de gostar dessa definição, acho ela um pouco idealizada. Ela pode soar um pouco vaga e nada prática. Em um outro extremo, temos Ernest Hemingway que disse que para você ser escritore:
“Tudo o que você precisa fazer é se sentar em frente da sua máquina de escrever e sangrar”.
Ernest Hemingway
Concordo que é algo pesado, mas gosto dessa visão mais orgânica, mais carnal do Hemingway. Para ser escritore, você precisa escrever. É isso. Simples e direto. Escreva e escreva tanto que chegue a sangrar. A prática leva à perfeição, não era esse o ditado? Com a escrita não tem porque ser diferente.
Ray Bradbury, autor de Fahrenheit 451, concordava com Hemingway. No prefácio do seu livro Zen e a arte da escrita, onde são reunidos diversos ensaios sobre a escrita, ele compara um pianista ao escritor:
“Lembre-se do pianista que dizia que, se ele não praticasse todos os dias, ele saberia; se não praticasse por dois dias, seus críticos saberiam; se não praticasse por três dias, seu público saberia.”
Ray Bradbury
Dessa forma, a melhor maneira de se tornar escritore, é escrevendo diariamente. Sei que nem sempre conseguimos ter um tempo do dia para escrever, mas tente colocar metas pequenas, quem sabe escrever 500 palavras por dia? Caso não consiga escrever em um determinado dia, tente, pelo menos, pensar na sua história. Como será a próxima cena? Desenvolvi bem o personagem X? Esses exercícios, por mais simples que possam parecer, já ajudam a manter você focado na escrita.
Dito isso, passemos para o próximo tópico. Apenas escrever todo o dia é suficiente? A reposta, como imagino que você tenha pensado, é: não. Sempre que pensamos em fazer algo, queremos fazer esse algo com qualidade. Note que fazer bem-feito é diferente de ficar buscando uma perfeição e nunca fazer. Não precisamos começar a escrever como Machado de Assis, mas também não precisamos escrever o pior texto do universo. É importante começar com alguma base e a forma mais natural para se adquirir esse fundamento é através da leitura.
Você consegue pensar em artistas que não consome arte? Uma pintora que não gosta de ver quadros, um músico que não escuta música, uma atriz que não assiste filmes ou peças de teatro? Difícil imaginar, né? Da mesma forma, não faz sentido ser escritore, sem antes, ser leitore. Através da leitura é possível aprende a construir sentenças e a estruturar uma narrativa, além de ser uma maneira de sempre manter a imaginação ativa. Você não precisa ser expert em gramática para começar a escrever — apesar ser importante saber o mínimo para que a leitura do seu texto não seja dolorosa —, mas certamente você precisa saber como uma história é contada. A melhor forma de descobrir isso é devorando os mais diversos tipos de livros. Isso se aplica a livros técnicos sobre a escrita. Indicarei alguns no fim desse texto.
Ok, você já sabe que escritore é um ser que escreve continuamente e tenta passar a sua visão de mundo através das palavras e, para isso, elu lê muito a fim de ter uma noção do que está fazendo. Mas o que vem depois que o texto está pronto?
O próximo passo é revisar a sua história. Contrate um revisor profissional, caso tenha essa possibilidade, e chame leitories para serem seus beta-readers. Elus te ajudarão a elevar o nível do seu trabalho e a apontar erros que você dificilmente perceberia.
Após a revisão, divulgue! Estamos na era da informação. Hoje é mais fácil que nunca fazer com que seu texto seja lido por outras pessoas. As revistas e editoras — apesar de ainda serem ótimas alternativas — não são mais as únicas opções. Publique no Wattpad, crie um blog, ou se preferir, escreva no Medium. Caso já tenha um livro pronto, existem várias opções para auto publicação. Farei um texto sobre isso no futuro, então sem spoilers.

Agora, darei algumas dicas mais gerais se você quer se tornar ume escritore.
- Estude sempre. Não precisa ser uma faculdade, apesar de os cursos de letras e jornalismo serem ótimas opções caso você queira pular de cabeça na escrita. O estudo, ao qual me refiro, vai além da graduação: leia, assista vídeos sobre escrita, faça cursos online, ouça podcasts! O que mais temos hoje são opções de estudar sobre qualquer assunto. E tire um tempinho para entender melhor sobre como funciona o mercado editorial, caso esteja pensando em publicar seu livro no futuro.
- Crie o hábito de escrever sempre. Estou repetindo isso aqui, caso você ainda não tenha percebido a importância desse ponto. Uma jogadora de futebol não aprende, de uma hora para a outra, a ser uma boa atleta. Tem uma frase que eu gosto bastante que diz algo como: o sucesso da noite para o dia às vezes demora dez anos. Existem exceções? Claro, mas acho que você pegou a ideia. Então, tire um tempinho (nem que seja meia hora) do seu dia para escrever.
- Comece um blog ou diário. Isso te ajudará a ter conteúdo para escrever mesmo quando estiver com bloqueio criativo na história na qual você está trabalhando.
- Por fim, converse com escritories. As redes sociais estão aí para isso. Conversar com pessoas que estão passando por experiências parecidas com as suas pode te ajudar a ter ideias e a se tornar ume profissional melhor. Sem contar o networking que você faz no processo. Só vantagens.
Não desanime da escrita. Se é algo que você gosta, se é algo que você quer fazer, vai fundo! Tenha sempre em mente qual o motivo que te move. Pense sempre no porquê você escreve. A escrita, apesar de todo aquele sangue que o Hemingway disse, deve ser algo prazeroso, reconfortante, que mostre ao mundo a sua forma de enxergá-lo. Para mim, escrever é uma rota de escape, o único momento onde estou vivendo com o máximo de intensidade. Como disse o aqui já citado Bradbury:
“É preciso se embriagar da escrita para que a realidade não nos destrua.”
Ray Bradbury
Algumas sugestões de materiais
Livros sobre escrita:
Para ler como um escritor – Francine Prose.
Zen e a arte da escrita – Ray Bradbury.
Sobre a escrita – Stephen King.
Misery — Stephen King (é um romance, mas aborda muitos pontos sobre o processo de escrever).
Canais no YouTube
ShaelinWrites (inglês)
Abbie Emmons (inglês)
Writing with Jenna Moreci (inglês)
Henri Bugalho — Vlog do escritor (vídeos antigos)
Pam Gonçalves (vídeos antigos)
Lives na Twitch
Canal da babi Dewett (ela fala muito sobre mercado editorial e compartilha dicas para escritories
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