Ontem, vivia em no interior. Hoje, moro em Belo Horizonte. Admiro BH. Há ruas quase poéticas ao amanhecer e ao entardecer. Luzes amarelas são refletidas em ladeiras, enquanto canteiros de flores parecem de uma era passada. Se nesses há flores, nunca reparei. Estando lá ou não, até agora não fez diferença.
O som dos motores nunca cessa. Quando reduz, descansa, toma fôlego e retorna. As ruas, os postes, os becos e os bueiros apenas assistem a vida cinzenta dia após dia. A tampa do bueiro da esquina não se importa com o tempo, espaço ou qualquer outra coisa. Ela apenas está lá, observando. É uma mera testemunha sem memória. As ruas são repletas de folhas. Mesmo que todas tenham vindo de árvores, algumas já são de papel. O chão nunca é limpo, por mais que se esforcem os garis. E esses se esforçam muito. Na verdade, nada aparenta realmente ser limpo. Mas não há nada tão terrível, parece apenas natural.
A todo momento pessoas passam anonimamente. Ninguém é alguem nessa confusão, bem como alguém se torna um completo ninguém. Os caminhantes só se preocupam com seus próprios negocios. Mas fazer o quê? Não poderiamos pedir que se preocupassem todos com apenas um único ego, poderiamos? Logo, dividamos as preocupações entre os inúmeros egos que aqui transitam apressados.
É poético o ritmo da cidade. Nunca durmo em completa escuridão. Quando as cortinas ficam abertas, vejo as janelas de prédio iluminadas, alvas e amarelas. Essa luz adentra meu quarto com timidez, mantendo-se acanhada. Olhando do alto, as pessoas parecem apenas personagens: representam a própria história, mas não são os reais donos dela. De tão alheios, os humanos parecem sem alma. Os carros parecem brinquedos e os mendigos tem ares consolados. Tenho pena deles e medo de, no fim, ser somente mais uma parte desse gigante organismo da civilização. Mas sou menos que isso.
