O Planeta

Aqui está frio… Muito frio… Acho que nunca senti tanto frio assim.

Estou em um daqueles momentos em que gostaria de me lembrar de algo feliz, de alguma boa sensação, de uma… Lembrança calorosa. Tudo começou quando eu senti pela primeira vez que poderia abrir os olhos. Levei algum tempo para entender o que seria “abrir os olhos”, mas mesmo sem pensar foi o que eu fiz. Abri os olhos de repente e tudo o que eu vi foi uma grande mancha vermelha. Aos poucos o borrão carmesim foi se tornando mais nítido, mostrando muitas raias amareladas. Continuar lendo

Morte-Certa: o terceiro dia

– Capitão, falta muito para chegarmos a Vila Rica?

Bartolomeu, que puxava a mula, alisou a barba grisalha.

– Não muito, mas vamos precisar armar o acampamento uma última vez.

Raposo olhava em volta aflito. Qualquer animal ou planta que se mexesse no seu campo de visão o deixava agitado.

– O senhor acha que vamos encontrar esse Morte-certa de novo? Continuar lendo

Morte-Certa: o segundo dia

Durante a noite Bartolomeu e João revezaram-se na vigia. Atentos a cada barulho mais alto e a cada sombra que balançava. Antes do amanhecer, fizeram o enterro de Tomás.

– Eu ainda vou pegar esse desgraçado… – sussurrava Antônio para si mesmo com o rosto molhado. Não é fácil despedir assim de um irmão, mas não poderiam levá-lo consigo.

Cavaram uma cova funda, para evitar que algum animal o desenterrasse. Enrolaram o corpo em um grande cobertor e o puseram no fundo da cova. Enquanto João despejava a terra sobre Tomás, Bartolomeu começou a rezar em voz alta.

– Receba hoje, Cristo, esse teu filho. “Pater noster, qui es in caelis. Sanctificétur nomen tuum…” Continuar lendo

Morte-Certa: o primeiro dia

Era o ano de mil setecentos e cinco de Nosso Senhor, ou algo aproximado de tal data. A água estava fresca a beira do córrego. Parecia tímida quando corria, mas voraz quando espirrava nas pedras cujas pontas apareciam ao longo do percurso. Um homem se agachara a margem, olhando ao redor. Tirou uma bolsa de couro presa a uma cinta que cruzava o seu tronco. Desarrolhou-a e mergulhou-a na água. Bolhas e espuma surgiram, mas foram logo levadas pela correnteza. Ele fez o mesmo com outros três cantis que segurava. Um a um ele os encheu. Fazia calor ao redor do rio e tudo que se ouvia era o barulho da água corrente. Continuar lendo

A terra dos meninos sonhadores

Este é um conto infantil que escrevi em 2016. Inspirado por tantos autores que assim começaram a escrever, inclusive pelo meu amigo Heider, achei interessante tentar escrever um conto para crianças.


A terra dos meninos sonhadores

Em uma terra muito, muito distante daqui, havia uma pequena vila sem nome. Era uma vila cercada por pequenos e belos muros de pedra entalhada e cobertos por musgo, que foram construídos há muito tempo. Como era de costume, havia um chefe do vilarejo. Ele se chamava Edmundo Move-pedra e todos apreciavam muito sua liderança. Em uma noite chuvosa ele fora chamado a cabana de Marco Colhe-graveto. Debaixo do temporal, o chefe deixou seu pequeno casebre no centro da vila para bater à porta do humilde vendedor.

– Marco! – disse o chefe ao entrar na casa de Marco – Onde está ele? Benedito já chegou?

– Venha aqui, Edmundo, rápido! – respondeu.

Na cama, Hortência Colhe-graveto, esposa de Marco, estava ofegante. Segurava em seus braços o pequeno recém-nascido: Leonardo Colhe-graveto. O bebê era bem miúdo e ninguém diria que era possível estar mais rosado. Ao lado da cama estava Marco e Benedito. Continuar lendo

Inteligência Quantificada

Era já quase hora do almoço, perto de meio dia e havia um cheiro de fritura no ar. Não era um bom lugar para isso, pois tratava-se de um ambulatório. Um pouco destruído, um pouco em reforma. Ninguém sabia ao certo. Em uma mesa, cheia de papéis, trabalhava o clínico renomado na cidade, Dr. Clausson. Formara-se com êxito na Faculdade de Medicina, tendo sido um dos poucos alunos a participar de todas as festas promovidas na instituição e ainda conseguir a dificílima nota de sessenta e um por cento de aproveitamento nas provas. Graduara-se depois em Análise Laboratorial de Medições Subjetivas e especializara-se em Operações Clínicas Computadorizadas. Por isso mesmo podia dar-se ao luxo de tantos papéis. A maioria nada tinha a ver com medicina, sendo muitos apenas propagandas e panfletos. Havia ainda uma ou outra revista sobre a vida de celebridades.

Observando o relógio de pulso, o Dr. Clausson ouviu baterem a porta. Levantou-se e dirigiu-se a ela. Levava consigo um prontuário onde acabara de desenhar um avião tosco na primeira página.

Abrindo a porta exclamou, ao ver o homem ali parado.

– Bom dia. O senhor é o…

– Angus, doutor, e minha mulher, Penélope. – disse o homem de cabelos castanhos ensebados, penteados para trás. Continuar lendo

Nós, suturados

Tentei escrever um conto com menos de 1000 caracteres para entrar em um concurso literário. Fracassei na tentativa, mas fiz um conto.

 

Nós, suturados

Durante muitos anos me empenhei para entrar no curso de medicina. Dediquei bastante, mesmo antes de prestar as temidas provas de vestibular. Tive assim o apoio da família, na qual havia um ou outro médico, mas sempre primos distantes. Recebi muito incentivo do meu avô, que admirava o ofício da medicina. Quisera eu que ele ainda estivesse conosco quando, com muita felicidade, fiz minha matricula no curso de medicina. Na verdade não sabíamos se ele morrera, pois simplesmente desaparecera. Triste dia em que minha avó voltou para casa e não o encontrou. Esperou dias, semanas, meses. A polícia acreditava que ele havia apenas ido embora. Teria outra família? Não sabíamos, mas foi um triste marco para nós. Pior que a certeza da morte era essa dúvida.

No primeiro ano de medicina comecei a aprender mais sobre o corpo humano. Mas antes de aprender sobre a vida, frequentemente visitei a morte. As aulas de anatomia foram um murro no estômago, embora graças a elas eu consiga hoje dizer onde fica o estômago. Aqueles corpos abertos, mesmo para o bem da ciência, foram algo assustador no inicio. Mas, assim como tudo mais na vida, me acostumei. E até mesmo aprendi a gostar. Continuar lendo

Anatomia (Parte II)

Atlas sobre o Axis... é o que sustenta o seu mundo.

Sustentáculo: Atlas sobre o Axis… é o que sustenta o mundo.

Confira aqui a parte I.

[…]

Com as mãos emborrachadas pelas luvas, tocou o queixo da cabeça decepada a sua frente. Ela, porém, nada fez. Nada podia fazer.

O dia transcorreu com muito estudo intercalado com pausas para o almoço, para descansar e para conversar com os amigos. O estudante retornou à pensão, ao fim do dia, da mesma forma como foi para a faculdade. Tomou um banho, jantou, estudou mais ainda e foi dormir. Com as luzes apagadas, o som baixo e indiferenciado de vizinhos conversando e cachorros latindo, fechou os olhos para dormir e lembrou-se daquele rosto dissecado. Quase podia vê-lo sorrir e então assustar-se com a atual condição. Dormiu, por fim, embalado por tais pensamentos mórbidos e contra a natureza do mundo. Continuar lendo

Anatomia (Parte I)

A medicina é para mim uma transbordante fonte de inspiração. Durante os últimos dois anos estive em contato com a anatomia, disciplina das ciências básicas do início do curso. Ao longo desse tempo tive várias ideias para contos que se ambientavam em laboratórios de anatomia e, este conto, foi o primeiro que realmente consegui escrever.

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Anatomia e Sorte: Tempo ou sorte… Quanto você ainda tem?

A ideia inicial era quase uma experiência científica: dar a um estudante da disciplina a capacidade de controlar as peças formolizadas e depois tirar tal capacidade dele para ver se ele enlouqueceria com isso. A primeira parte já parecia suficientemente forte para tornar o aluno um tanto perturbado, enquanto a segunda parte deixaria a dúvida sobre a veracidade dos fatos. O que aconteceu é o que se segue: Continuar lendo

Lobo da Noite (Final)

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Lobo da Noite – Final

– Agora – disse a voz, parecendo não vir de nenhum lugar específico – eu terei a minha pelo meu trabalho. Sair do abrigo do lar, em companhia da lua e dos lobos que me deram nome, para ir buscar alguém capaz de me alimentar com a própria vida. Eu sou Lupuel, filho do lobo da noite. Continuar lendo