Morte-Certa: o terceiro dia

– Capitão, falta muito para chegarmos a Vila Rica?

Bartolomeu, que puxava a mula, alisou a barba grisalha.

– Não muito, mas vamos precisar armar o acampamento uma última vez.

Raposo olhava em volta aflito. Qualquer animal ou planta que se mexesse no seu campo de visão o deixava agitado.

– O senhor acha que vamos encontrar esse Morte-certa de novo? Continuar lendo

Morte-Certa: o segundo dia

Durante a noite Bartolomeu e João revezaram-se na vigia. Atentos a cada barulho mais alto e a cada sombra que balançava. Antes do amanhecer, fizeram o enterro de Tomás.

– Eu ainda vou pegar esse desgraçado… – sussurrava Antônio para si mesmo com o rosto molhado. Não é fácil despedir assim de um irmão, mas não poderiam levá-lo consigo.

Cavaram uma cova funda, para evitar que algum animal o desenterrasse. Enrolaram o corpo em um grande cobertor e o puseram no fundo da cova. Enquanto João despejava a terra sobre Tomás, Bartolomeu começou a rezar em voz alta.

– Receba hoje, Cristo, esse teu filho. “Pater noster, qui es in caelis. Sanctificétur nomen tuum…” Continuar lendo

Morte-Certa: o primeiro dia

Era o ano de mil setecentos e cinco de Nosso Senhor, ou algo aproximado de tal data. A água estava fresca a beira do córrego. Parecia tímida quando corria, mas voraz quando espirrava nas pedras cujas pontas apareciam ao longo do percurso. Um homem se agachara a margem, olhando ao redor. Tirou uma bolsa de couro presa a uma cinta que cruzava o seu tronco. Desarrolhou-a e mergulhou-a na água. Bolhas e espuma surgiram, mas foram logo levadas pela correnteza. Ele fez o mesmo com outros três cantis que segurava. Um a um ele os encheu. Fazia calor ao redor do rio e tudo que se ouvia era o barulho da água corrente. Continuar lendo